Pode parecer um contra-senso mas não é. O conceito de amor, tal como de democracia, tem sido esvaziado na voragem dos dias que procuram encher-se de ilusões dum consumo refinado que leva à competitividade exacerbada, ao egoísmo e ao isolamento.
Apesar de cada vez mais carentes as pessoas estão também cada vez mais sozinhas, com um vazio que dói e que parece não ter cura. Multiplicam-se as religiões, o culto no Além, os livros que ensinam experiências esotéricas e mais aqueles que falam no poder da mente para a resolução dos problemas do homem cada vez mais atormentado e cada vez mais sem solução.
O que torna as pessoas assim tão sozinhas e tão mal amadas? Que procura de interiores justifica esta crise existencial que se adensa e pesa à medida que a sociedade evolui? Que liberdade nos prende com cadeias mais pesadas?
Existe em cada um de nós o sonho da aldeia ou da terra distante em que o ar era puro e as pessoas solidárias. Terras que estão hoje no abandono e geraram filhos para desenraizar. Filhos que andam pelos subúrbios das grandes cidades do litoral, que emigraram, que não têm céu nos seus apartamentos de betão, que nunca dão pagos e lhes encarceram o corpo e os sentimentos.
Os campos verdes e as flores que tinham nomes cedem lugar aos shoppings onde passeiam no domingo à tarde, onde o consumo lhes mostra as últimas novidades que o tornarão cativo.
No prédio as pessoas nem se conhecem. Algumas morrem e nascem sem que o vizinho ao lado chegue a dar por isso. Cresce a agressividade com o sol da manhã em que apressadamente nem se repara, porque há filas de trânsito intermináveis porque há pressa, daquela pressa que nunca tem fim, que nos automatiza e seca por dentro.
Há quem sonhe com as aldeias donde a vida os empurrou acenando com a miragem das grandes cidades. Aldeias que estão a ser descobertas pelos ricos que, depois de expulsarem com a mão invisível da economia os seus habitantes, regressam para as comprar porque o direito ao sonho e à tranquilidade também têm preço.
Vão-se vendendo os montes alentejanos e a alma daqueles que depois de se entregarem à terra madrasta que lhes negava o sustento, tiveram que abandoná-la para verem hoje os grandes montes serem invadidos por espanhóis, alemães e outros, que desfrutam dos campos e dos sonhos donde os naturais foram sendo expulsos.
Falar de amor como dum produto que se compra e vende e está à mercê dos modelos económicos que ditam os sociais, e nunca o contrário, tornou-se tão comum que já ninguém questiona se o amor é isso ou se o que ficou dele é apenas um conceito vazio para encher as necessidades afectivas esgotadas pelo isolamento.
Se alguém recorda as dificuldades dum passado onde não havia sequer para comer, recorda também como as pessoas repartiam o muito pouco que tinham, como se conheciam pelos nomes e se visitavam, como se aprimoravam nas festas anuais.
Ninguém quer sonhar com a dureza dos tempos. Trabalho de sol a sol, de fome e de escravidão. Porém neste El Dorado em que sobram as depressões, os suicídios e outro tipo de misérias, procuram-se referências e valores e o amor total aquele amor capaz de amar pela generosidade e pela entrega e, sobretudo, pela grandeza de ser autêntico e não precisar de luzes da ribalta para ser visível.
Dar o que sobra, praticar a caridade são caminhos para a morte da construção do homem. O ser humano só se realizará pela dignidade conferida pelos direitos que lhe assegurem uma vivência em que possa olhar pelas manhãs, cumprimentar os vizinhos e sentir-se gente. Partilhar do seu pão e da sua mesa.
Em Portugal fala-se no desenvolvimento do interior enquanto as assimetrias regionais se acentuam sem se cativar, para o interior, populações que se amontoam sobre o litoral cada vez mais multicultural e multiétnico, cada vez mais violento e inseguro em que o, homem distante de si mesmo, vai perdendo a capacidade de amar.











