Conheci há cerca de um ano, no mundo virtual onde por vezes gravito, uma mulher chamada Raimunda que marcou os meus diálogos e os meus espaços sempre que estaciono palavras e pensamentos num sítio que me atrai pelo seu aconchego, pela sua perseverança ou pela sua distintividade.
O blogue de Raimunda é especial pela sensibilidade e humildade que ressaltam duma alma em que a arte e a emoção dão voz ao seu amor maternal sentido e vivido numa dimensão plena.
Ray tem três filhos adultos sendo que um deles é autista. Todo o autista é especial porque transporta um mundo imenso, por vezes fascinante por ser desconhecido, por vezes distante nessa diferença que não se compreende ou se receia aceitar.
Cada autista é um caso e cada caso corresponde a uma história e a um percurso.
O percurso de Filipe é simplesmente deslumbrante apesar das mágoas que nele se inscrevem devido a ser diferente.
Apesar de não falar, Filipe é alfabetizado. Aprendeu a ler sozinho com 3 anos de idade. Actualmente, com 22 anos, gosta de ler tudo, em especial os jornais, ficando para nós o enigma dum mundo interior que se satisfaz lendo mas que não comunica como qualquer outra pessoa comum.
Filho duma mãe artista, cuja sensibilidade extravasa nos magníficos arranjos florais com que embeleza os espaços de congressos, casamentos e afins, Filipe desde cedo revela uma enorme propensão para pintar.
A sua alma em tumulto, as suas aspirações mais sensíveis e (quem sabe?) se uma revolta no desajustamento da diferença na sua relação com os outros, encontram na pintura o expoente máximo duma realização sublime num mundo interior onde muitas portas parecem estar fechadas.
Atenta a estas manifestações do ser, Raimunda orgulha-se deste artista inesperado que não fala como as outras pessoas mas que, provavelmente, emite mensagens repletas de significado que ela deseja ver descodificadas. Então talvez saiba mais sobre o seu filho e penetre na sua alma imensa, reclusa e livre, essa alma que não cabe no mundo padronizado dos outros mas que tem, certamente, uma linguagem própria de sentimentos e de afectos.
Raimunda tem esperança que um dia um médico, especializado nestas matérias, lhe diga quem é o seu filho, que sentimentos possui, que olhos tem para olhar as coisas.
Raimunda não desiste dos sonhos apenas porque os sonhos têm que ser diferentes. Um dia ela saberá quem é Filipe, o que sente, através desses quadros nos quais ele se prolonga de forma fascinante.
Raimunda resistiu a vender os quadros de Filipe ainda que tenha feito algumas exposições. Ela sabe que Filipe precisa dum suporte material, bem sólido, para sobreviver no mundo dos homens, mas não quer cortar essa possibilidade de diálogo que a prende a Filipe desfazendo-se dos seus quadros. Seria como vender uma mensagem por descodificar, algo que o filho lhe quisesse dizer e que ela nunca ouviu no seu mundo fechado a este tipo de acessos.
Esta mãe coragem duma dignidade e perseverança exemplares, que não se lamenta nem apela à compaixão, sonha para o seu filho, como qualquer outra mãe em circunstâncias normais, uma realização pessoal que o faça sentir-se alguém num mundo em que todos têm uma identidade.
Sonha, por isso, que algum empresário aposte em Filipe para uma linha de produtos diferente e fascinante, em áreas como a moda, nomeadamente a moda infantil, painéis, decorações de interiores, publicidade etc. É que Filipe responde com prazer e eficácia às solicitações da mãe no que respeita a desenvolver este tipo de arte “por encomenda”.
Como todo o ser humano, Filipe, precisa de se sentir valorizado pelas suas competências, pela sua capacidade de criar e, quem sabe, de contribuir para uma sociedade onde se insere e onde se distingue.
Dentro do eu de cada um poderá haver muitas fronteiras mas a expressão da alma é infinita e o sonho não tem espaço e é intemporal. Um dia, quem sabe?
Porém, neste dia, e para todas as mães e pais que desejam que os filhos tenham altas cotações no mundo das vaidades exigindo-lhes, por vezes, atributos fúteis, o exemplo de Raimunda será uma lição de vida e um motivo de reflexão.
É que ela tem um orgulho imenso, neste filho diferente, e a sua grande aspiração está em permitir-lhe que ele seja como é num mundo em que muitos se despojam do seu verdadeiro eu para se submeterem aos padrões vigentes.