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FOI O PRETO

Vivemos na sociedade da discriminação. Uma sociedade que se assume como evoluída mas que discrimina, de forma cruel, quem não corresponde aos seus padrões.

Não me refiro à discriminação dos que prevaricam mas sim a uma discriminação que recai sobre características físicas sejam elas étnicas, de deficiência, de sexo ou de aptidões.

Esta forma desumana de apontar o dedo é corroborada por uma comunicação viciada no serviço ao poder que a sustenta e a paixões fáceis que prendem, vinculam e facilmente se incendeiam.

Muitas minorias étnicas que vivem nos subúrbios das grandes cidades desenvolvem hábitos de violência que não praticam nas suas terras de origem. O desenraizamento cultural, a violência das condições de vida propiciam marginalizações de costumes que se transformam nos delitos que todos conhecemos e a comunicação social tão profusamente noticia. Porém estas notícias, ao invés de contribuírem para o esbatimento da situação são, em si, uma fonte duma outra violência: a discriminação fortuita que acaba por justificar para o discriminado os actos de violência que a si próprio associam.

É frequente, a propósito de tudo e de nada, ouvirmos ou lermos na comunicação social: x indivíduos de raça africana, ou de etnia cigana, ou do leste europeu, roubaram ou assassinaram, como se para o conhecimento do acto em si fosse importante este tipo de identificação. Identificação que já não é feita quando se trata dum europeu comum e ainda menos quando esse europeu é natural do País onde a noticia é produzida.

O que relato pode parecer de somenos importância mas não é. A formação da opinião pública é assim trabalhada e muitas pessoas concluem que determinada etnias têm atributos de violência e de inferioridade que as torna propensas ao crime organizado. Poucos pensarão nas condições de vida bem mais responsáveis que a cor da pele ou qualquer outra característica menos valorizada.

Recordo que um dia, ao sair de casa para uma caminhada pela avenida paralela à linha do comboio, ter sido avisada, por uma transeunte, que andava por ali um grupo de cinco “pretos” a roubar e a assaltar e que, por isso, tivesse cuidado.

Não tardei em cruzar-me com o referido grupo que vinha em louca correria e que atirou ao chão uma mala furtada. De etnia africana era apenas um.

E assim se marca com um ferrete, independentemente da culpa e das aptidões, conotando com características censuráveis outras pessoas de bem que sofrem uma discriminação injusta para a qual em nada contribuíram e que não conseguem mudar.

Mas não se diz “foi o preto” quando se refere um jovem nigeriano que ganha a vida a vender lenços de papel junto a um semáforo em Sevilha e que tendo encontrado uma carteira com 2.700 euros, um cheque no valor de 870 euros, um livro de cheques, uma caderneta de aforros, assim como documentação pessoal e empresarial, a foi entregar à polícia que posteriormente encontrou o seu dono, um sevilhano de 68 anos que a tinha perdido quando circulava de mota na estrada Esclusa para realizar uns pagamentos (PD 13-08-08).

Mas eu digo, foi o preto, o autor de tanta integridade que nos faz acreditar nos valores de um mundo em que tantas vezes descremos.

E digo “foi o preto” quando penso nessas pessoas maravilhosas como Eusébio, Francis Obikwelu e Nelson Évora, entre outros, que tanto contribuíram para o prestígio de Portugal no mundo. E digo “foi o preto” quando penso em todos esses imigrantes que trabalham e ajudam a construir um país do qual se sentem irmãos apesar da guerra.

E digo foi o preto, ao servente de pedreiro na casa em reconstrução ao lado da minha, que trabalha com dedicação e faz um sorriso rasgado quando me cumprimenta.


O RENDIMENTO SOCIAL DE INSERÇÃO



São já 334 mil os que recebem o Rendimento social de inserção. Em finais de 2007 eram cerca de 312 mil mas, desde então, não têm parado de crescer. É esta nova faixa de pobreza onde se albergam toxicodependentes, desempregados e imigrantes que caracteriza os beneficiários duma prestação social destinada a famílias carenciadas.

Em terra de crise e de contestação os olhares acusadores recaem sobre uma população incaracterística que vive da miséria mesmo quando à porta têm carro e em casa um um plasma ou play station. São pobres na cultura e na subserviência que os impede emergir do pântano para uma vida com mais dignidade. Sim, porque o que importa é a realização pessoal conquistada pelo trabalho e pelo respeito dos outros coisas difíceis de interiorizar para quem vagueia pelas margens da vida, considerando talvez o Governo e o País que já fizeram o suficiente quando os libertaram duma miséria extrema através dum subsídio retirado aos cofres do Estado e algures aos bolsos dos contribuintes.

Pessoalmente não sou dos que acham que o dinheiro é mal gasto. Defendo, e sempre defenderei, o combate à pobreza e, por uma questão de coerência, não posso ir contra a uma medida de grande alcance social que nos eleva e redime de muitas outras maldades dos gestos e da indiferença.

O que condeno é que o País não tenha encontrado as soluções necessárias para a verdadeira inserção social libertando os subsidiários das cadeias da dependência e dando à população o desenvolvimento necessário à assumpção da sua maturidade social. Nesta perspectiva o Rendimento Social de Inserção deveria ser, como o nome indica e o conceito sugere, uma ponte de passagem e não um porto de chegada.

Porém jamais a minha voz se erguerá contra esta prestação social que peca não pelo conceito nem pela finalidade, mas pela incapacidade de construção a que estamos votados neste País que definha em moral e em costumes talvez porque os exemplos vindos de cima não tenham sido edificantes nem de molde a elevar os que chafurdam no charco.

Curiosamente, à medida que se extremam posições, vão-se ouvindo as vozes de certos senhores do antigamente, daqueles que sonham com um Salazar ressuscitado, como se fosse possível ressuscitar as trevas e delas fazer luz para os caminhos do futuro. E essas vozes indignam-se e insurgem-se contra o rendimento social de inserção, como se estivesse aqui a salvação da Pátria e a solução para todas as indignidades.

Porém estas mesmas vozes nunca se ergueram contra os grandes corruptos que não são condenados, contra os chorudos vencimentos acumulados em serviços públicos nem contra as fortunas que surgem do nada.

Essas vozes apenas se erguem contra esta espécie de bastardos do rendimento social de inserção apelando às paixões fáceis, de quem está desesperado, para atirarem mais uma pedra à execução do estado social.

Não, a minha voz nunca fará coro com quem pretende que o sol nasça no outro lado, onde a impunidade não conhece grilhões e onde a caridade é um bem das elites às quais as mãos estendidas deverão prestar vassalagem.

Sou contra a pobreza e contra a indignidade. Sou contra os joelhos que têm que vergar. Sou contra a vida que se prostitui para que uns possam ser gente.

O Rendimento Social de Inserção é uma medida de grande alcance social pese embora a incompetência na forma como é gerido. Porém nunca a minha voz se erguerá contra o pão que alguém comeu com o meu suor, seja ele de plasma ou de DVD. A minha voz ergue-se contra quem quer confundir os gritos de justiça para que não se saiba, ou se minimize, as grandes facturas que uns pagam para gáudio dos outros. Não dos pequenos, dessa arraia-miúda, mas dos impérios que crescem e florescem na economia do nada.

IRONIAS


Vivemos num mundo em que já nada espanta. Não sei se o mundo será pior do que quando eu não existia mas que exibe com despudor a sua hipocrisia, disso não me restam dúvidas.

Já não me bastava ver George W.Bush preocupado com os direitos humanos na China. -Não que eu ache que a China não viola os direitos humanos. Só que não deixa de ser irónico este apelo vindo dum fazedor da guerra do Iraque e do presidente dum País em que a pena de morte continua a ser aplicada, nomeadamente no Estado do Texas em que, enquanto governador, George W. Bush assinou qualquer coisa como 152 penas capitais. -

Mas dizia eu, já não me bastava ver George W.Bush preocupado com os direitos humanos na China, como ainda tive que saber que o espectáculo de abertura do Jogos Olímpicos, era um espectáculo viciado que revela o quanto beleza pode esconder a fealdade das intenções.

Ainda perdoo que, parte do espectáculo do fogo de artifício, fosse pura ficção dos computadores. Agora que a organização dos Jogos Olímpicos optasse por escolher Lin Miaoke, de 9 anos, para cantar em playback porque Yang Peiyi, a dona da voz que encantou o mundo, não era suficientemente bonita para ser mostrada, é algo que revela a postura dum país fechado sobre si mesmo numa ideologia pobre de valores humanos.

E nós por cá? Não temos as nossas ironias? Claro que temos e optei por uma que achei realmente ilustrativa de quanto pode a manipulação dos números.

O INE acaba de publicar o resultado dum Inquérito às Despesas da Família que revela que as famílias portuguesas têm, em média, um rendimento líquido mensal de 1.845 euros.

Fiquei baralhada. Outros dados indicam que 47 por cento das famílias portuguesas vivem ou viveram, pelo menos num determinado período, em situação de pobreza, que o ordenado mínimo nacional é dos mais baixos da Europa, que continua a proliferar os contratos precários de 500 euros. Como é que chegamos então a um valor médio de rendimento aparentemente satisfatório?

Bem sei que o estudo é de 2005-2006, algo que deveria impedir que os jornais o colocassem em grandes parangonas até porque a realidade se altera a cada momento num mundo de desactualizações extremamente rápidas. Porém, esta forma de atirar com os números, é algo equivalente a colocar a criança bonita com a voz da criança feia. Porque há uma verdade menos agradável que se encobre quando se soma e divide para achar a média.

Há um Portugal desigual em que as pensões e ordenados máximos são exponencialmente superiores ao que eram antes do 25 de Abril. Existe um fosso cada vez mais visível entre ricos e pobres com todos os privilégios que os avanços tecnológicos proporcionam em lazer e em conforto a uns e estão ausentes nos outros.

Não me custa aceitar que existam diferenças. Mas custa-me a aceitar que essas diferenças possibilitem a uns uma alimentação e cuidados de saúde adequados e a outros o sofrimento e o abandono.

E para isto não há médias.


FLÁVIA - A LUTA CONTINUA



Após o programa na TV-record em que Odele divulgou o caso de Flávia, haverá no próximo dia 15 de Setembro uma blogagem colectiva agora que o processo de Flávia seguiu para Brasilia.


Adere a esta luta e informa-te dos seus desenvolvimentos em FLÁVIA VIVENDO EM COMA .

Hoje por Flávia, amanhã por ti, em nome de todos nós não fiques indiferente.




FLÁVIA VIVENDO EM COMA - VEJA ÁMANHA A TV-RECORD PELAS 16H-30M












Dediquemos o dia 2 Agosto a FLÁVIA .

Pouco lhe temos podido dar durante estes 10 anos que tem permanecido em coma vigil, mas podemos mostrar a nossa solidariedade para com Odele, sua mãe, que amanhã estará na TV-RECORD no programa "O Melhor do Brasil" que poderá ser assistido em Portugal, às 16h:30m (hora portuguesa). http://www.recordeuropa.com/ .

Odele vai falar-nos deste caso que está a apaixonar a opinião publica e a reunir sinergias nos blogues portugueses e brasileiros. É que 10 anos são uma eternidade para quem sofre e um absurdo judicial relativamente aos culpados que continuam impunes.

Participe amanhã, num dia que poderá ser dedicado a Flávia e a todas as crianças que perderam a vida ou ficaram incapacitadas por falhas nos equipamentos, ouvindo a sua mãe na TV-Record ou pondo, no seu blogue, um sinal de solidariedade.

INTERPRETAÇÕES


A realidade é sempre subjectiva. Depende dos olhos que a vêem e dos indicadores que a interpretam. Para a comunicação social a realidade é aquela que faz vender jornais ou subir as audiências televisivas através das emoções que cria.

Para o governo a realidade é aquela que justifica a sua governação. Para a oposição a realidade deverá ser aquela que pode deitar abaixo o governo e servir os seus propósitos de cativar mais uma fasquia de adeptos e, assim, ir ganhando espaço de intervenção e logo de poder.

E tudo isto muitas vezes à custa de um mau gosto que arrepia pela vulgaridade e pela falta de ética.

Nestes últimos dias, a comunicação social noticiou, por exemplo, que os portugueses compram menos pão. E isto como se tal facto fosse um indicador da crise que, indiscutivelmente, atinge a larga maioria da população.

Mas será que os portugueses deixaram mesmo de comer e estão em riscos de morrer com aquela fome endémica com que somos confrontados pelas notícias de países do terceiro mundo? Ou será, simplesmente, que os portugueses racionalizam melhor os consumos, nomeadamente o do pão que frequentemente aparecia em grandes quantidades nos caixotes do lixo?

Também a comunicação social apresentou, como um indicador de degradação de poder de compra, o uso do cartão de crédito em operações de baixo custo. Eu também o faço, não porque não tenha o dinheiro disponível no momento, mas porque os Bancos associam aos cartões de crédito um conjunto de benefícios a partir dum certo plafond.

Mas se estes são exemplos de pequena monta, pese embora o efeito corrosivo que terão sobre a confiança dos portugueses quanto à saída da crise, noutros casos já não será bem assim.

Por estes dias tem-se assistido à polémica dos vencimentos dos gestores públicos que o Governo diz não serem tão elevados quanto as noticias vindas a lume mas que, feitas as contas, teriam ficado, não no valor médio de 445 mil euros, mas em qualquer coisa como 323 mil euros ano, excluídos os gestores da Caixa Geral de Depósitos, entidade onde o accionista Estado mais paga.

Segundo os dados apresentados, os encargos com as administrações das empresas públicas terão subido 30% no ano transacto em virtude do acréscimo do número de administradores não executivos.

Para uma melhor compreensão da importância dos números de que estamos a tratar, importa referir que, um universo de 77 empresas com cerca de 90% da carteira de participações relevantes do Estado, recebeu deste qualquer coisa como 26,8 milhões de euros só no ano passado.

Enquanto isso Paulo Portas, num arremedo de populismo onde já perdeu a graça, fala na fiscalização do rendimento de inserção social como se a prioridade fossem as migalhas e não com os Himalaias.

É que, ao exemplo que acima citei, muitos outros poderão ser acrescentados e que vão dos complementos de pensões, obtidos pelos deputados que passam pelo parlamento, a todo um conjunto de benesses que permitem que, em tempos de crise, refinem os sinais de status e de diferenciação da classe de topo.

Assim, há mais de 40.000 portugueses a usufruírem dum rendimento anual superior a 100.000 euros, sem que tenha aumentado o investimento privado no sentido da criação de riqueza e postos de trabalho.





TERÁ A DOR UM PREÇO?

Não, não tem. Quando se perde um filho ou se vê esse filho em situação de invalidez ou de grande sofrimento, nós achamos que daríamos tudo para lhe restituir a vida e a saúde. Porque não há dinheiro que pague uma vida ou o que resta dela.

Porém, e pese embora o estado emocional daquela dor absoluta e sem tréguas que nos acompanha a par e passo e com a qual nos habituamos a conviver quando, um acidente de percurso nos privou de desfrutar da vida em plenitude, a razão e a justiça reclamam que quando há culpados estes deverão ser responsabilizados porque o acto humano, quando fere uma vida, não deverá resultar impune.

Todavia, entre os actos humanos há que distinguir aqueles que acontecem por pura imprevidência, sem qualquer espécie de dolo ou intenção, e os actos que são parte duma postura de vida assente no egoísmo e na materialização das vivências. Cabem, nestes últimos, os imensos casos que acontecem a nível de um sem número de equipamentos que são produzidos com incúria, no que respeita a condições de segurança, para embaratecer o seu preço final num mercado que se pretende ganhar a qualquer preço e a qualquer custo.

Cada um dos que me lêem poderá representar na sua memória alguns dos casos que conhece, neste País ou noutros, em qualquer canto do mundo em que a competitividade selvagem se sobrepõe à ética e aos valores por mais elementares.

Eu própria e a pensar num caso, fui visualizando vários, desde equipamentos de segurança a vários níveis, até aos transportes e materiais de saúde nos hospitais.

Porque exemplos, infelizmente, não faltam.

E porque para estes empresários pouco conscienciosos, que só entendem a linguagem do dinheiro, os sentimentos pouco contam, há que penalizá-los naquilo que mais lhes dói: a perda material derivada aos danos que provocaram.

Por essa razão eu nunca abdicaria duma indemnização a que tivesse direito como reparo dum dano causado ainda que esse dano não tivesse preço. Poderia dar a indemnização a uma instituição de caridade, se ela já não servisse para valer a quem foi vítima da incúria, mas não abdicaria dela.

E muito menos abdicaria do direito a essa indemnização, cujo valor deverá ser compatível com as perdas físicas e sentimentais que provocou, se com ela pudesse cuidar, com mais qualidade, dum filho(a) incapacitado para a vida dita normal.

Por tudo isto lanço um apelo repetido, gritado e generalizado numa boa parte da blogosfera para que o caso de Flávia seja reavaliado e a indemnização justa seja satisfeita.
Porque um coma vigil irreversível, e que dura há dez anos, não tem preço mas precisa ser alimentado.

Porque Odele mãe de Flávia precisa de proporcionar-lhe os mesmos cuidados redobrados enquanto tiver forças e quando já não as tiver.

Porque este caso deve servir de exemplo a todos os casos de incúria, não podemos baixar a voz nem esconder as lágrimas.

É preciso que todo o mundo saiba que a dor tem um preço e que esse preço tem que ser pago para que Flávia continue a viver com todos os cuidados e todo o amor que só pode receber se houver condições materiais para que se cumpra.





NAS FRONTEIRAS DO EU



Conheci há cerca de um ano, no mundo virtual onde por vezes gravito, uma mulher chamada Raimunda que marcou os meus diálogos e os meus espaços sempre que estaciono palavras e pensamentos num sítio que me atrai pelo seu aconchego, pela sua perseverança ou pela sua distintividade.

O blogue de Raimunda é especial pela sensibilidade e humildade que ressaltam duma alma em que a arte e a emoção dão voz ao seu amor maternal sentido e vivido numa dimensão plena.


Ray tem três filhos adultos sendo que um deles é autista. Todo o autista é especial porque transporta um mundo imenso, por vezes fascinante por ser desconhecido, por vezes distante nessa diferença que não se compreende ou se receia aceitar.


Cada autista é um caso e cada caso corresponde a uma história e a um percurso.


O percurso de Filipe é simplesmente deslumbrante apesar das mágoas que nele se inscrevem devido a ser diferente.


Apesar de não falar, Filipe é alfabetizado. Aprendeu a ler sozinho com 3 anos de idade. Actualmente, com 22 anos, gosta de ler tudo, em especial os jornais, ficando para nós o enigma dum mundo interior que se satisfaz lendo mas que não comunica como qualquer outra pessoa comum.


Filho duma mãe artista, cuja sensibilidade extravasa nos magníficos arranjos florais com que embeleza os espaços de congressos, casamentos e afins, Filipe desde cedo revela uma enorme propensão para pintar.


A sua alma em tumulto, as suas aspirações mais sensíveis e (quem sabe?) se uma revolta no desajustamento da diferença na sua relação com os outros, encontram na pintura o expoente máximo duma realização sublime num mundo interior onde muitas portas parecem estar fechadas.


Atenta a estas manifestações do ser, Raimunda orgulha-se deste artista inesperado que não fala como as outras pessoas mas que, provavelmente, emite mensagens repletas de significado que ela deseja ver descodificadas. Então talvez saiba mais sobre o seu filho e penetre na sua alma imensa, reclusa e livre, essa alma que não cabe no mundo padronizado dos outros mas que tem, certamente, uma linguagem própria de sentimentos e de afectos.


Raimunda tem esperança que um dia um médico, especializado nestas matérias, lhe diga quem é o seu filho, que sentimentos possui, que olhos tem para olhar as coisas.


Raimunda não desiste dos sonhos apenas porque os sonhos têm que ser diferentes. Um dia ela saberá quem é Filipe, o que sente, através desses quadros nos quais ele se prolonga de forma fascinante.


Raimunda resistiu a vender os quadros de Filipe ainda que tenha feito algumas exposições. Ela sabe que Filipe precisa dum suporte material, bem sólido, para sobreviver no mundo dos homens, mas não quer cortar essa possibilidade de diálogo que a prende a Filipe desfazendo-se dos seus quadros. Seria como vender uma mensagem por descodificar, algo que o filho lhe quisesse dizer e que ela nunca ouviu no seu mundo fechado a este tipo de acessos.


Esta mãe coragem duma dignidade e perseverança exemplares, que não se lamenta nem apela à compaixão, sonha para o seu filho, como qualquer outra mãe em circunstâncias normais, uma realização pessoal que o faça sentir-se alguém num mundo em que todos têm uma identidade.


Sonha, por isso, que algum empresário aposte em Filipe para uma linha de produtos diferente e fascinante, em áreas como a moda, nomeadamente a moda infantil, painéis, decorações de interiores, publicidade etc. É que Filipe responde com prazer e eficácia às solicitações da mãe no que respeita a desenvolver este tipo de arte “por encomenda”.


Como todo o ser humano, Filipe, precisa de se sentir valorizado pelas suas competências, pela sua capacidade de criar e, quem sabe, de contribuir para uma sociedade onde se insere e onde se distingue.


Dentro do eu de cada um poderá haver muitas fronteiras mas a expressão da alma é infinita e o sonho não tem espaço e é intemporal. Um dia, quem sabe?


Porém, neste dia, e para todas as mães e pais que desejam que os filhos tenham altas cotações no mundo das vaidades exigindo-lhes, por vezes, atributos fúteis, o exemplo de Raimunda será uma lição de vida e um motivo de reflexão.

É que ela tem um orgulho imenso, neste filho diferente, e a sua grande aspiração está em permitir-lhe que ele seja como é num mundo em que muitos se despojam do seu verdadeiro eu para se submeterem aos padrões vigentes.

Lídia Soares



NOTA: Não deixe de visitar ARTE AUTISMO e conheça o mundo enigmático e artístico de Filipe.
Não deixe também de visitar a RAY, a mãe de Filipe, em ARTE AUTISMO e faça uma viagem maravilhosa pelo mundo da arte e do sentimento aprendendo a conhecer melhor os autistas e as particularidades que os tornam diferentes.