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A ADOPÇÃO DE CRIANÇAS E AS CRIANÇAS QUE NINGUÉM QUER


Quando se fala na adopção de crianças, e se defende mesmo que deverá existir um dia nacional dedicado à adopção, várias interrogações poderão ser colocadas sobre a bondade da adopção e sobre as circunstâncias que permitem que certas crianças estejam em situação de ser adoptadas.


São por demais conhecidos casos de rejeição e de maus-tratos por parte das famílias biológicas mas talvez sejam menos conhecidos, e não menos frequentes, crianças que são entregues a instituições porque os seus progenitores, especialmente a mãe, em situação de penúria e desamparo extremos, não conseguem ver outro caminho pela frente que não seja entregarem os filhos para que outros lhes proporcionem o bem-estar que eles não podem. E fazem-no com o coração partido porque o amor não é apanágio de quem o pode suportar. Acontece no nosso País e, mais acentuadamente, noutros países, por esse mundo fora, onde grassa a pobreza em vários sentidos e com várias leituras.



Uma pobreza que alimenta impérios, sejam da prostituição ou de negócios ilícitos, ou simplesmente dum desemprego que alastra como uma nódoa ou uma praga sobre a consciência dos homens sem consciência. É este universo de gente explorada, maltratada ou despida de afectos e de valores sentimentais, que produz crianças que se destinam a ser adoptadas pelos que podem, pelos que se afirmam detentores doutra qualidade de afectos já que as margens da vida nunca foram o seu habitat na terra.



Estes candidatos a pais, com aquelas credenciais que os tornam credíveis, buscam nas prateleiras das instituições a criança que lhes falta para dar cor à sua vida e continuidade à sua casta.



Não querem os mais velhos que já não podem apresentar como se seus filhos fossem. Apesar de, em Portugal, haver, em 2007, mais de 11.000 crianças institucionalizadas à espera de serem adoptadas, durante o mesmo ano as adopções não andaram longe das 300.



E isto porque, dos candidatos a pais inscritos, a esmagadora maioria pretende apenas crianças com menos de três anos ou no limite com seis anos de idade.



Crianças com idades superiores a 9 anos estão fora de questão, como fora de questão estão também as crianças doentes, deficientes e mesmo de outras etnias.



As vocações parentais parecem pois, em muitos casos, virem associadas a necessidades de realização pessoal que se revêem no êxito e na beautiful people excluindo todos os que não se enquadram nestes conceitos.



De fora ficam as principais vítimas e os principais interessados: Crianças a quem a vida negou o desenvolvimento junto da família natural, que as devia amar e proteger, e que refinou a sua crueldade para com elas tornando-as como um produto de marketing não apetecível, sobrante, desinteressante como objectos de refugo duplamente rejeitados.



Que sentimentos terão estas crianças quando adultos do amanhã? Algumas ainda encontrarão aquelas pessoas boas e raras que amam incondicionalmente. Mas as outras?



OS NÚMEROS DA POBREZA




Foi profusamente difundido, pela comunicação social, que Portugal foi o País da OCDE que mais combateu a pobreza. Já antes o nosso Primeiro-ministro tinha referido que, neste momento, as pessoas que se encontram em situação de pobreza se situam nos 18% o que equivale a um milhão e oitocentos mil portugueses.

Apesar de muito elevada, esta fatia da população que vive com menos de 366 euros por mês (valor médio do rendimento nacional), é bem menor que aquela que, num passado recente, vivia nestas circunstâncias. As taxas de pobreza chegaram a situar-se nos 23 % descendo e fixando-se nos 20% por anos consecutivos.

Porque a pobreza me aflige e fere a minha consciência de cidadã que se sente quase como uma privilegiada que usufrui em supérfluos o que outros não têm para o essencial, comecei a pensar que todos os sacrifícios fiscais, e não só, até valeriam a pena para que se cumpra esta meta de maior justiça social.

Entusiasmada procuro dados e noticias sobre a matéria. E que encontro? Que efectivamente o relatório da OCDE que dava conta da descida da taxa de pobreza se reporta ao período de 1995-2006. Desconhece-se, portanto, o valor da tendência de 2006 para cá, dado que seria da maior importância para aferirmos da justeza de certas medidas e percebermos a focalização do actual governo em matéria tão sensível e de tão grande alcance.

Em contrapartida com o optimismo da melhoria deste indicador (taxa de pobreza), aparece um Portugal em que o fosso entre ricos e pobres é um dos maiores da OCDE tendo apenas no mesmo patamar os Estados Unidos e, atrás de si, o México e a Turquia.

E apesar de Portugal ter sido o país da União Europeia que mais reduziu a pobreza nos últimos anos, convém acrescentar que, mesmo assim, continua acima da média europeia que se situa nos 16%.

Angustia-me a falta de rigor da palavra. Angustia-me este conceito de pobreza que cresce e alastra pelas ruas onde há mais pedintes, mais insegurança e menos solidariedade.

Caminhei há dias pelas ruas de Lisboa onde fui rever locais da minha referência como o Largos do Carmo, de Camões e a Rua da Trindade. Para além do estacionamento caótico e das ruas sujas onde muitos estendem a mão à caridade, apinha-se o lixo pelo chão, em sacos de plástico e fora dos recipientes num espectáculo que coexiste com as lojas de luxo que, segundo parece, continuam de boa saúde.

Apinhada de turistas Lisboa espelha bem as assimetrias do País que temos. Algo que, mesmo que queiramos, não conseguimos não ver.

Talvez os habitantes dos condomínios de luxo possam ter outras leituras. As suas rotas não são pelos sítios sujos onde os pobres incomodam. E se alguém os confrontar com a degradação da paisagem humana justificam-na dizendo que as causas estão na toxicodependência, na imigração, nos que não querem trabalhar e daí por diante.

Só não dizem de quem é a culpa e quais os mecanismos que geram a pobreza de todas estas situações.

A (IN)TOLERÂNCIA


A tolerância é um conceito que por vezes me incomoda tendo em conta que me obriga a aceitar o que, naturalmente, não aceitaria privando-me da liberdade e do espaço que legitimamente suponho que todos devem ter. Sempre preferi, a este conceito, o da compreensão que permite que aceitemos as diferenças como fazendo parte da nossa identidade posto que a diversidade é uma riqueza única que nos acrescenta e nos enobrece.

E quando a compreensão falha e o que nos sobra é o abismo da agressividade e da exclusão de espaços?

Será que vivemos, no presente, situações múltiplas mutuamente exaustivas e mutuamente exclusivas? Dito por outras palavras, existem ilhas de verdades absolutas que não aceitam o contraditório?

Efectivamente, parecem surgir, cada vez mais, situações de intolerância quer as que se movem por interesses materiais, de poder ou de ascensão, quer simplesmente pela alienação duma sociedade que perde, cada vez mais, a noção exacta dos seus tempos e dos seus limites.

São as claques de futebol e seus adeptos que ferem e magoam os seus adversários. São as religiões que descobrem deuses que conhecem uns filhos e enjeitam os outros. E então ao nível da política o desvario é absoluto. Perdem-se amizades profundas, criam-se ofensas intransponíveis só porque alguém acredita num modelo que não é o que defendemos embora reconheçamos, se quisermos ser honestos, que todos os modelos têm as suas fragilidades e (por que não?) as suas virtualidades desde que respeitem os direitos humanos.

No mundo virtual não há blogue que exprima livremente opiniões políticas que não seja alvo de ataques. Eu própria me inibo de expressar abertamente esta ou aquela ideia para manter todo um processo de procura de partilha, de esclarecimento e troca de opiniões. Não é um acto de cobardia mas um desejo de aproximação. Porque há contrários em que me revejo e porque não quero implementar uma visão monolítica que me prenda a um espaço restrito em que cada um de nós funciona como alguém que, dando um mergulho, ensurdece de repente e fica a falar sozinho por já não ouvir o som das outras vozes.

Procuro as palavras para além das capas dos interesses. Procuro as palavras para além dos muros que separam, dos ventos que afastam e da noite que as oculta. Eu não saberia escolher entre os diferentes habitantes das ilhas nem sequer entre mim e o que me é estranho.

Porque é no desbravar dos mistérios que me descubro, que descubro outras pessoas e que me considero útil.

É a política um exercício de cidadania, logo uma actividade nobre, uma vez que temos que ser governados por um sistema seja ele qual for? Sim, a política é um exercício de cidadania mas não através da defesa acérrima deste ou daquele partido desta ou daquela ideologia. A política é um exercício de cidadania quando através do esclarecimento transparente e informado, levamos cada cidadão a reflectir sobre os fenómenos a que está sujeito e a buscar no turbilhão dos acontecimentos um rumo e um caminho.

E isto tendo em conta que não há perfeições mas alternativas, que as escolhas implicam sempre algumas perdas, e que as reclassificações são a prerrogativa do homem civilizado de não morrer nem definhar sobre si mesmo.


A CRISE DA PALAVRA



O que mais me assusta em tempo de crise é a crise da palavra. Uma palavra, viciada pela ausência de credibilidade, que nos faz recordar as referências perdidas algures nos confins da nossa cultura e da nossa História.

Vão longe os tempos em que a palavra dada era como uma escritura. Hoje mesmo as escrituras já não fazem jus às palavras dadas sempre com os juristas à procura duma “abertura” que as desvirtue em benefício dos seus clientes.

A retórica tomou conta dos nossos dias e já não é privilégio dos eruditos. Retiram-se conceitos duma informação profusa, também prostituída pelas palavras, que permite criar aquele suspense que faz manter presos aos ecrãs, e eventualmente às leituras, uma população ávida de emoções (leia-se escândalos) que mancham o brilho das estrelas mortais. Estrelas que precisa para poder viver os dias cinzentos mas que odeia por serem estrelas num mundo em que as diferenças de recursos se tornaram demasiado visíveis através da comunicação. E quem quer ser subalterno num mundo em que a comunicação apenas valoriza os vencedores?

Talvez a corrupção tenha as suas raízes nesta cultura pobre virada para o faz-de-conta. Para além da natural propensão do homem para passar pelos intervalos da chuva, existe essa atracção pelo brilho fácil que o redime das frustrações internas que carrega e pesam como uma cruz. E este homem moderno, diminuído perante si mesmo, encontra poderosos aliados nos políticos e em todo um poder sustentado pelos media desvirtualizados, e pobres de conteúdo, para servirem nãos as causas mas os seus senhores.

E tudo porque as palavras já não valem o que valiam descoberta a ciência de as alinhar e colocar dizendo o que não se diz de forma socialmente correcta e conceptualmente devastadora.

O que interessa aos políticos não é exactamente o que interessa ao povo que dizem defender. O que interessa aos políticos é derrubarem o poder e o poder em não se deixar derrubar. As palavras são instrumentos colocados ao seu serviço para cumprir esta missão perversa. E o povo entra no jogo e bate palmas porque foi convencido de que está a participar e que estão a ser respeitados os seus desejos. Todos os dias chovem justificações que, como gotas de água, caem na terra inóspita queimada pelo sol dos dias.

As recompensas ao povo que bate palmas vêm em forma de ilusões de igualdades, que cada vez estão mais distantes, mas parecem sempre mais ao seu alcance. E assim se consome o que não se precisa. E assim se contraem dívidas mais e mais.

E assim há quem lucre com os dias stressantes que atiram para os psiquiatras e psicólogos mais de um quarto da população. E assim aumentam os crimes e os assaltos por vezes apenas para se obterem bens supérfluos, esses supérfluos da igualdade fictícia que lhes foi incutida por uma cultura pobre.

As soluções vêm em forma de palavras num mundo sem palavra. As soluções vêm em forma de justificações que servem aos senhores das rendas baixas nas casas de Lisboa, aos grandes casos mediáticos a serem julgados em tribunais onde a palavra dos advogados, pagos a peso de ouro, faz ressonâncias que emudece a força de muitas outras palavras.

A falta de confiança veio para ficar. E como poderemos exigir confiança a um mundo sem palavra?

Num dia carente de palavra olhando, em meu redor no mar de justificações com que se justifica o injustificável, numa crise que se adensa porque a confiança morreu, sonhei com Egas Moniz, o célebre aio de D. Afonso Henriques que se entregou com toda a família nas mãos do Rei de Castela por o seu amo não ter cumprido a palavra.

Mas foi um sonho apenas que veio acompanhado duma viagem aos tempos em que nos contavam estas histórias como uma referencia em que a palavra era soberana.

Tempos em que se morria na ignorância doutros mundos e doutras realidades mas que se desconhecia esta comunicação vendida e manipulada para servir quem serve.


O NOME DA DOR



Albino Forjaz Sampaio, autor do século passado, dizia no seu livro Palavras Cínicas: “Nunca te debruçaste na alma dum paralítico? Pois a qualquer momento que o fizesses havias de o encontrar absorto na raiva de toda a humanidade não ter, como ele, a sua cadeira de rodas.”



Dizia este homem, para quem a humanidade era um sucessivo desencanto, que o espírito humano tem deformidades que o levam a desejar aos outros os seus próprios males para não sofrer sozinho a compaixão e a inferiorização dos olhares que o diminuem por ser diferente.

Se é certo que Albino Forjaz Sampaio terá sempre uma parte da humanidade que se revê nas suas teorias a verdade é que, e felizmente, também há aqueles para quem a adversidade se transforma numa causa para a vida para que outros não tenham que passar pelos mesmos infortúnios. E isto independentemente da situação de desgraça lhes ter, ou não, sido ocasionada por alguém desse universo tempestuoso que Albino Forjaz Sampaio tantas vezes encontrou no seu caminho.

O mundo do HIV espelha muito todas estas situações. Pessoas que foram infectadas por outras que conscientes da sua patologia não se inibiram de passarem a outros a doença que também receberam de forma traiçoeira qual fantasma dos seus dias escuros e incertos, discriminados e solitários.

Mas é nas grandes provas que se conhecem as grandes pessoas. Raul, proprietário dos blogues SIDADANIA foi submetido a uma delicada operação cirúrgica ao coração e está agora nos cuidados intensivos. Há 12 anos que vive com o HIV e que deixou para trás os seus sucessos e uma vida que em tudo parecia ser promissora. Há 12 anos que Raul sofre na pele a dor duma doença para a qual não há cura e que só cede em troca de danos colaterais que vai provocando com a medicação adoptada.

Porém, e apesar das limitações, Raul não desiste na sua cruzada contra a SIDA, escrevendo nos seus blogues, informando-se em congressos, visitando locais onde as prostitutas procuram os seus clientes, para lhes falar sobre a prevenção e lhes distribuir preservativos. O mesmo faz com as seringas em relação aos toxicodependentes. Todas as suas forças estão centradas neste combate e, por isso, não se lamenta.

Apenas lamenta que a sua palavra não chegue a todos, que muitos se percam por falta de esclarecimento, que muitas crianças seropositivas sejam abandonadas em instituições e nunca, ou muito raramente, sejam escolhidas para adopção.

São dele as frases que a seguir transcrevo.


“Nem sempre a vida é fácil, e nós por vezes contribuímos para a tornar ainda mais difícil com a nossa inactividade.

Quotidianamente recebemos lições de vida, muitas das quais nos passam despercebidas tão ocupados estamos olhando para o nosso umbigo, ou lamentando-nos dos nossos problemas, que em vez de nos libertarmos nos afundamos cada vez mais não vendo saída, o que poderia acontecer caso investíssemos esforço na resolução dos nossos problemas.

Quantas vezes sendo incapazes de resolver os nossos problemas não aceitamos a ajuda que nos dão por pensarmos que a mesma não chega para a solução deste ou daquele problema. Certo é que somos exigentes connosco mesmo até em receber isto ou aquilo só porque habituados a pensar quantitativamente nos esquecemos que uma grande inundação começa com uma gota de água. Queremos tudo de uma vez e na medida certa para satisfazer as nossas necessidades e acabamos por as agravar tornando o nosso sofrimento cada vez maior.

Para além disso poderei dizer que me dói a alma, não só por mim mas por todos aqueles que estão infectados, e por aqueles que em breve passarão a estar porque a mensagem dos perigos da SIDA não foi passada e ela só acontece aos outros.”



O FIM DE UM CICLO


Num mundo de mudanças rápidas e imprevisíveis assiste-se, com alguma perplexidade, ao ruir das muralhas em que se escudava esse capitalismo global, assente no mercado e na sua liberdade total, e na doutrina económica que atribuía à sua mão visível uma auto-regulação que se provou utópica.

Cresceram as desigualdades e com elas as tensões sociais. Aumentou o desemprego e a insegurança passou a fazer parte do dia a dia do mundo civilizado.

O sonho americano parece ter chegado ao fim e ser longa a travessia do deserto para a saída da crise. Uma crise que se repercute na Europa dos 27 onde a Irlanda, (um País que encabeçava a 10ª. posição na lista dos mais desenvolvidos PNUD -Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) acaba por ser o primeiro país da Zona Euro a entrar em recessão técnica com o PIB a cair pelo 2º.trimestre consecutivo.


Estas notícias inquietantes associadas à turbulência dos mercados financeiros e suas instituições, encontram eco numa América empobrecida e desvitalizada.



Uma reportagem da BBC em Santa Bárbara, na Califórnia, dá-nos conta como milhares de americanos vivem, actualmente, uma situação de pesadelo em que a crise das hipotecas os forçou a abandonar as suas casas para morarem nos seus próprios carros atulhados do pouco que conseguiram salvar.



E assim pernoitam, em condições precárias, em parques improvisados bem perto das suas antigas casas, de milhões de dólares, situadas entre as montanhas de Santa Yñez e o Pacífico e que agora estão vazias.



Sem tecto há já mais de um ano, estes novos sem abrigo provenientes duma classe média até então bem suportada, são uma consequência directa do colapso do mercado imobiliário norte-americano. É que os preços de casas na Califórnia caíram 30% só desde o início do ano até Maio com as inevitáveis consequências sobre os mercados que lhe estão associados.



Este exemplo ilustrativo dum ciclo que termina e que estava apodrecido, poderá servir de reflexão a todos aqueles que pensam que batemos no fundo no que se refere à degradação das condições de vida dos mais pobres e da dita classe média.



Um ano decorrido sobre o início da crise do subprime, as perspectivas continuam a não ser animadoras e os últimos indicadores apontam para a probabilidade dos países da Zona Euro bem como o Reino Unido virem a estar, tal como os EUA e o Japão, em situação de recessão nos próximos meses.



A confirmar-se o cenário traçado pelo Banco norte-americano Goldman Sachs de que mais de metade da economia mundial enfrenta risco de recessão, o futuro não se nos apresenta muito promissor.



Por isso, e apesar de, no caso português, a solidez da banca e a sua quase imunidade aos riscos de falência não fazerem prever a necessidade de injectar dinheiro e ajudar o sector, parece fazer cada vez mais sentido as advertências dos que consideram que o Governo deve suspender os grandes investimentos anunciados para o TGV e o novo aeroporto de Alcochete fazendo uma reavaliação realista à luz da crise financeira actual.



Crise que envolve, não só a necessidade de racionalizar os recursos do investimento, como a previsibilidade dos mercados não absorverem uma maior oferta de mobilidade em consequência da tendência de retracção dos orçamentos familiares.


A MORTE DIGNA



Se todo o ser humano deveria usufruir duma vida digna tendo em conta que os avanços da ciência permitem hoje recursos que garantam a satisfação das necessidades básicas a todos, também na morte deveria haver a dignidade que se impõe a quem chegou ao fim do seu percurso.

Porém a morte não é democrática. É retardada pelos avanços da medicina a que só alguns têm acesso, dorme ao lado dos quase mil milhões que vivem no mundo em penúria extrema, arrasta-se pelos corredores da morte onde muitos Países insistem em colocar os seus condenados à pena capital (quase na totalidade pobres e desprotegidos) e exerce-se na guerra que ceifa populações indefesas constituídas maioritariamente por aqueles que não têm condições nem para fugir nem para pegar em armas.

Há quem defenda que a morte não se deixa comprar mas eu acho que se deixa. É inevitável, é certo, mas não se exerce com a mesma pressa consoante as resistências que encontra seja da medicina curativa ou preventiva, seja das muralhas com que se defendem os que dela se podem defender até ao último instante.

Basta analisar sumariamente a esperança média de vida em muitos locais da terra para que facilmente nos apercebamos dessa disparidade.

Nos Países desenvolvidos onde, apesar das diferenças, a morte é mais democrática, continua a haver um fosso considerável no acesso à dignidade de fim de vida.

Há os que são abandonados em lares e hospitais, que vivem sozinhos sem os apoios permanentes de que necessitam, ou que, em doenças terminais, servem de cobaias a experiências médicas, que por vezes lhes causam um enorme sofrimento, em troco do prolongamento da agonia.

E se a eutanásia dura e crua, poderá ser fracturante em muitos valores individuais e colectivos, já o recurso artificial a uma vida, que se torna por este meio mais indigna e mais sofrida, poderá merecer um consenso mais alargado quanto à sua rejeição. É que se trata de todo um poder de decisão que se exerce sobre quem não se pode defender e, muitas vezes, à margem da própria família, levando a cenários dolorosamente indignos pelo desrespeito do direito de morrer em paz.


Segundo notícia vinculada no JN, está em estudo na região espanhola de Andaluzia, um projecto-lei que determina que os médicos que adoptem medidas "inúteis de prolongamento de vida" a doentes terminais sem possibilidade de recuperação, poderão ser punidos com multas até um milhão de euros.

O projecto-lei refere ainda que o médico, ou médica, responsável pelo paciente, tem a obrigação de limitar as medidas de suporte vital quando não as considere necessárias para evitar a obstinação terapêutica e que essa justificação deve constar no historial clínico do paciente.

O texto obriga ainda a que a opinião do médico seja partilhada por, pelo menos, mais dois outros especialistas que conheçam o caso do paciente em questão.

Em casos em que os representantes ou familiares do paciente discordem da retirada das medidas de suporte vital, o médico pode pedir um parecer não vinculativo, cabendo-lhe depois a decisão final, inclusive contra a vontade da família.

Este projecto procura ainda regular o direito dos doentes terminais a receber toda a informação sobre a sua doença, a tomar decisões sobre o tratamento que podem aplicar e a recusar a intervenção proposta pelos médicos.

O projecto procura também assegurar os direitos dos menores de idade, estipulando que a partir dos 16 anos possam ser os próprios a decidir.

Este projecto-lei consubstancia assim muitas das preocupações que frequentemente nos assaltam quando, perante cenários de sofrimento e de debilidade extremos, deixamos em mãos alheias algo de importância tão vital como a dignidade na morte.

UM ALERTA

É frequente recebermos dos nossos amigos virtuais os mails mais variados e sobre os mais variados temas. Alguns amigos enviam-nos mensagens magníficas que mexem com a nossa sensibilidade e nos fazem empreender viagens através de paragens de sonho no mundo das emoções.

Há os que nos enviam alertas, há os que fazem apelo a causas solidárias e há os que nos convidam a aderir a determinadas campanhas ou grupos de amizade.

Relativamente a estes últimos eu ponho de parte as minhas naturais reticências em relação a determinados casos específicos quando conheço a pessoa, ainda que virtualmente.

Por essa razão que envolve o respeito e a amizade pelo emissor entro por vezes, reconheço que ingenuamente, em assinaturas que implicam o fornecimento de dados pessoais nomeadamente o número de telemóvel.

Penso que deve ter sido uma dessas situações que deu origem ao episódio que a seguir vou relatar.


Há cerca de 1 mês fui surpreendida por uma mensagem da TMN que me dava conta que o meu saldo estava a zero. Efectivamente eu não tinha ideia de ter feito chamadas no valor do saldo e, por isso, decidi fazer uma experiência. Carreguei o telemóvel com 7,5 euros e não fiz qualquer chamada naquele aparelho. Passado dias recebo a confirmação da TMN de que o meu saldo estava negativo.

Agora já sem dúvidas de que algo de anormal se estava a passar ligo para a TMN donde sou informada que o meu saldo estava a ser “papado” pelas mensagens constantes enviadas pelo nº.3350. Cada mensagem que me enviavam descarregava 2 euros no meu saldo. Fiquei estupefacta em como pode ser possível “legalmente” limparem-me a conta sem haver qualquer serviço de contrapartida que tenha por mim sido encomendado.

Da TMN informaram-me de que havia mais casos de pessoas a queixarem-se. Solicitei então que me barrassem o acesso a esse tal número. A TMN recusou-se com o argumento de que só o lesado, neste caso eu, poderia pôr fim ao envio de mensagens.

Teria que enviar para o 3350 uma mensagem a dizer STOP.

Mas para enviar a mensagem teria que fazê-lo do número que estava a ser afectado o que implicaria recarregar o dito telemóvel, correndo o risco de o saldo ser entretanto papado pelas mensagens que entretanto chegassem.

Ameacei ir à televisão, pôr a TMN em tribunal, mas nada. Recarreguei o telemóvel e recebi uma mensagem do dito 3350, desta vez sem descarregar os 2 euros, a dizer que o cancelamento tinha sido aceite.

Efectivamente passaram-se já uns dias e parece tudo ter voltado ao normal.

Porém pergunto: que lei da selva é esta?