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25 DE ABRIL SEMPRE


Fernando Cardoso



DIA INTERNACIONAL DO LIVRO

Escritor que seleccionei: Fernando Cardoso.




Para quem não conheça este autor, com uma vasta obra publicada dedicada ao público juvenil, aconselho vivamente uma viagem a Fernando Cardoso


Deixo-vos para já este extracto dum poema que retirei do seu livro "O UNIVERSO DA CRIANÇA".




Onde estão as crianças
da minha idade?

Vejo seus espectros
em passos e gestos comedidos
concentrados, compenetrados,
cansados sem correr;
não riem
(...)
não fabricam pistolas, cavalos ou chapéus:
compram tudo feito
Tudo.

Há muito
deixaram de se guiar
pelo Sol e pelas Estrelas,
olham apenas
para o Deus-Relógio
com tiques nervosos
em busca do dia seguinte
tirado a fotocópia das vésperas.

Outros
são peritos em gastronomia,
descansam as mãos
sobre o abdómen dilatado,
riem por tudo e por nada
e discutem Futebol
como única coisa séria
na vida

Onde estão as crianças da minha idade,
os Heróis da minha rua?
Morreram? Que saudade!!!


Voltarei a passar mais uns poemas deste autor excelente mas penso que os meus amigos, entretanto, não resistirão a conhecê-lo melhor.



MENSAGEM DE REGRESSO


Venho de longe, não do Faceboook mas de mim mesma que, por vezes, necessita andar por outros caminhos para sentir a aragem da liberdade. aquela liberdade que faz com que não marque ponto num certo sítio e a uma certa hora, não tenha que dizer as palavras que não encontro, não tenha que ir só porque sei que alguém está à minha espera.

As ausências tornam-se, por isso, muitas vezes mais presentes que a própria presença, e os amigos que fiz na blogosfera esses vão-me passando pelo pensamento com mensagens que guardo como recordações preciosas. Hoje tinha saudades e apetece-me vê-los.

É como um chamamento duma música especial em terras estranhas.

Hoje venho. Não sei se para ficar mas para visitar.

Boa Páscoa a todos e muitas amêndoas.



JOÃO - UMA HISTÓRIA DE VIDA


João era contínuo num departamento onde trabalhei. Tinha ali sido colocado, por reclassificação profissional, após um acidente de trabalho que, após várias intervenções cirúrgicas, o deixou fragilizado duma perna.


Era um homem de 36 anos falador e activo que, desde logo me deixou a impressão dum enorme potencial sub-aproveitado. Com uma vontade imensa de aprender, e uma capacidade muito acima da média, rapidamente se integrou nas funções que exercia com invejável espírito de iniciativa, dedicação e polivalência. Ele separava e distribuía a correspondência, dava assistência às máquinas da reprografia, fazia serviço de marceneiro e tudo o mais que se lhe pedisse sem nunca demonstrar enfado.

Sabia que vivia com dificuldades. Filho duma família pobre e numerosa tinha que participar nas despesas dum Lar de 3ª. Idade onde o pai cego estava internado. Também estava a amortizar o apartamento (que adquiriu dando como entrada o valor da indemnização pelo acidente de trabalho) onde vivia com a mulher e os dois filhos pequenos. Para angariar mais algum dinheiro pois o vencimento era baixo, João trabalhava em biscates mal saía da empresa. No Verão vendia gelados nas praias e também fazia pequenos arranjos de manutenção em casas particulares.

Frequentemente chamei a atenção da Direcção de Recursos Humanos para as capacidades do João e para a vantagem que a Empresa teria em dar-lhe uma categoria profissional mais condizente com o seu mérito. Mas a Empresa não era minha e ia-se escudando em normativos arcaicos e constrangedores para não valorizar profissionalmente o João. Um dos argumentos é que ele tinha apenas o 2º.ciclo do ensino básico.


Apesar de eu conhecer como estas empresas públicas funcionam, mesmo assim instei com o João para se matricular à noite numa escola pública o que ele acabou por fazer com bons resultados. Três anos depois conseguiu tirar o 11º. Foi nessa altura que abriu concurso para uma categoria de chefia intermédia que tinha como requisitos, além da experiência e informação da chefia, a escolaridade mínima do 11º. Quando tudo parecia correr de feição fui chamada a mais altas instâncias e admoestada por estar a incentivar um contínuo a concorrer a um cargo de chefia intermédia. O argumento era o de que um trabalhador subalterno de nível mais inferior não poderia passar a ser chefe de pessoas que antes estavam "acima dele".

Argumentei que essa não era uma razão porque a pessoa em causa valia por ela própria. Mas os meus argumentos de nada valeram. O João concorreu mas não foi colocado. Como prémio de consolação deram-lhe um cargo de operador de reprografia, com mais uns 10 €/mês de vencimento e a promessa que aquela categoria seria um trampolim para outros concursos como aquele de que o João fora arredado.


Entretanto saí da Empresa e passei uns anos sem saber do João. Um dia encontrei um ex-colega que me disse que o João tinha sido reformado por invalidez pois abusou do trabalho em biscates extras para complementar o vencimento e tiveram que lhe amputar a perna doente. Estava portanto em sérias dificuldades.


Fui visitá-lo passado pouco tempo. Não vou entrar em pormenores sobre a visita profundamente constrangedora para mim e para ele. Basta que diga que senti vergonha pela injustiça que foi praticada. E foi com vergonha que procurei na mala algum dinheiro para lhe deixar mas, na falta deste, optei por lhe passar um cheque algo generoso para as minhas possibilidades.


Chamei a atenção da mulher para o papel deixado debaixo do cinzeiro para ser entregue ao João depois de eu sair.


Nunca mais vi o João e o cheque nunca foi descontado.



*Este texto insere-se num conjunto de posts que é minha intenção criar no Ano Internacional de Combate Pobreza e Exclusão Social. João é nome fictício bem como alguns pormenores com vista a não identificar o protagonista se por aqui passar alguém que o conheça. Mas a história é verdadeira. Uma história entre muitas em que a injustiça social prevalece e se legitima em diferentes formas de pobreza. Também a pobreza moral de quem decide em circunstâncias como esta.



FACEBOOK


As redes sociais vêm , cada vez mais, tomando conta da vida dos cidadãos mesmo daqueles que, como eu, começaram por lhe resistir.

Entendia eu que, não havendo tempo para tudo, a blogosfera era um espaço privilegiado para troca de ideais numa liberdade abençoada pelos ventos duma democracia em que a liberdade de expressão e/ou opinião nem sempre é possível ou bem aceite.

Porém, após ter ignorado os convites que me foram dirigidos para entrar em várias redes sociais, acabei por fazer parte desse mundo moderno com todas as vantagens e vicissitudes por demais conhecidas.

Todavia não pretendo desactivar este espaço de opinião, humilde mas aberto, onde conheci pessoas fantásticas, onde escrevi sentires e pensares por vezes ingénuos mas autênticos, e onde tenho recebido testemunhos de amizade que me aquecem os dias e os pensamentos. Não quero perder estes amigos e, por isso, vou continuar.


Tão breve quanto possível, contarei uma história verdadeira, lamento escondido duma injustiça social igual a muitas outras que fingimos não ver. E por um breve momento que seja terei a sensação que muitos dos meus amigos da blogosfera se revoltarão comigo e que, juntos, somos esta família especial que nunca se encontrou frente a frente (salvo algumas excepções), mas que partilhamos dum quotidiano rico pela liberdade que proporciona.

Voltarei breve com a minha história e, entretanto, vou pôr as visitas em dia porque já sinto saudades das vossas mensagens.

2010 - Ano Europeu Contra a Pobreza e Exclusão


Sob o Título "A Verdade Dói" o Jornal de Notícias publicava em 2009-01-10 uma notícia de que destaco:


"Os números da pobreza em Portugal são preocupantes. Cerca de 20% dos portugueses vivem ou estão em risco de viver em situação de pobreza (com menos de 360 euros mensais). Estas taxas de risco de pobreza registam-se já depois das transferências sociais, como pensões ou subsídios, porque sem estes, a taxa de pobreza em Portugal cobriria 40% da população. Entre os grupos de risco - mais propícios a caírem em situação de pobreza - estão os idosos e as famílias numerosas. O desemprego, salários de miséria e pensões ainda mais miseráveis, colocam estes grupos em situações francamente difíceis.


Portugal, de entre os 27 países da União Europeia, é um dos nove mais pobres, existindo 1,9 milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza, na sua maioria no Norte. A região, mergulhada na falência das fábricas, lidera a pobreza em Portugal com um rendimento per capita expresso em poder de compra idêntico ao dos países de Leste.

4386 euros anuais, no máximo, é o rendimento com que vivem os 1,9 milhões de pessoas em situação de pobreza.

16 891 euros anuais é o rendimento médio de cada português. A média europeia em 2005 foi de 22 400 euros, segundo o Eurostat."

Sem mais comentários.



O OUTRO LADO DA POBREZA


*Imagem da net

Falar da pobreza é falar de injustiças, de desigualdades, dum mundo que não é pacífico pelos interesses, pela cobiça, pela ânsia de poder e pela desumanização globalizada num mercado que não se compadece dos fracos nem das almas sensíveis.


Só o lucro motiva as empresas cada vez mais gigantescas e prontas a engolir. Por detrás estão cérebros que trabalham com números. É irrelevante a dor que provocam com os despedimentos. Reduzir postos de trabalho e encargos com os trabalhadores são condições essenciais ao crescimento e à sobrevivência destes tubarões dos tempos modernos.


Tudo se justifica com a justificação de que há trabalho e não há empregos e de que é preciso eliminar postos de trabalho para garantir o lucro e a expansão.


Há trabalhadores que se suicidam e outros deixam de viver embora continuem a calcorrear as ruas deste mundo hostil.


Há desempregados que a recorrerem ao Banco Alimentar mas também há empregados que o fazem por não ganharem o suficiente.


Há pessoas que não gostam de trabalhar mas até têm empregos seguros garantidos pelas redes de sociabilidades que geram influências. Há quem tenha trabalhado uma vida inteira e não tenha nada.


Há quem seja brilhante nos estudos e acabe em Caixa de Hipermercado, ou desempregado suportado pela família. Há quem tenha obtido graus académicos à força de ensino pago, sem brilho e às vezes sem até ter concluído os graus que lhes atribuem.Mas os curricula fazem-se à medida das influências e quem contesta os filhos dos patrões?


Há pobres que geram riqueza enquanto muitos ricos geram pobreza. Quem ousa apontar a dor da injustiça?


Vou contar algumas histórias neste Ano 2010 que dizem ser o Ano da Luta pela Erradicação da Pobreza. Vidas de pessoas que conheço. A realidade do conceito de pobreza no seu elemento cru para que nos possamos questionar.



A POBREZA INFANTIL NA UE

*Imagem retirada da net



São muitas as formas de pobreza e vários os indicadores que a definem. Porém, entre todos os pobres, as crianças espelham todo um mundo de desigualdades, de injustiças e de oportunidades perdidas para as quais não contribuíram.


Um mundo que lhes rouba a alma, para todo o sempre, a maior parte das vezes. Aprendem a não serem crianças desde tenra idade e, não raras vezes, a sociedade vem exigir reparos aos seus comportamentos marginais demitindo-se das suas responsabilidades quando fingiu não ver e omitiu, para sua comodidade, os odores que vêm das ruas.


Em 2009, num fórum dedicado à pobreza infantil que decorreu em Lisboa, a Federação Europeia para as Crianças de Rua estimou que houvesse entre 150 mil a 200 mil crianças europeias a viver nas ruas salientando que o fenómeno da pobreza infantil está em crescimento na UE.

Não podemos ignorar tal facto. Não podemos passar uma esponja por este número. É que estamos a falar da União Europeia no ano 2010, o ano convencionado para a erradicação da pobreza.

E não há pobreza que mais doa que a duma criança sem oportunidades.