
Fernando Cardoso
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Para quem não conheça este autor, com uma vasta obra publicada dedicada ao público juvenil, aconselho vivamente uma viagem a Fernando Cardoso
Deixo-vos para já este extracto dum poema que retirei do seu livro "O UNIVERSO DA CRIANÇA".

Argumentei que essa não era uma razão porque a pessoa em causa valia por ela própria. Mas os meus argumentos de nada valeram. O João concorreu mas não foi colocado. Como prémio de consolação deram-lhe um cargo de operador de reprografia, com mais uns 10 €/mês de vencimento e a promessa que aquela categoria seria um trampolim para outros concursos como aquele de que o João fora arredado.
Entretanto saí da Empresa e passei uns anos sem saber do João. Um dia encontrei um ex-colega que me disse que o João tinha sido reformado por invalidez pois abusou do trabalho em biscates extras para complementar o vencimento e tiveram que lhe amputar a perna doente. Estava portanto em sérias dificuldades.
Fui visitá-lo passado pouco tempo. Não vou entrar em pormenores sobre a visita profundamente constrangedora para mim e para ele. Basta que diga que senti vergonha pela injustiça que foi praticada. E foi com vergonha que procurei na mala algum dinheiro para lhe deixar mas, na falta deste, optei por lhe passar um cheque algo generoso para as minhas possibilidades.
Chamei a atenção da mulher para o papel deixado debaixo do cinzeiro para ser entregue ao João depois de eu sair.
Nunca mais vi o João e o cheque nunca foi descontado.
*Este texto insere-se num conjunto de posts que é minha intenção criar no Ano Internacional de Combate Pobreza e Exclusão Social. João é nome fictício bem como alguns pormenores com vista a não identificar o protagonista se por aqui passar alguém que o conheça. Mas a história é verdadeira. Uma história entre muitas em que a injustiça social prevalece e se legitima em diferentes formas de pobreza. Também a pobreza moral de quem decide em circunstâncias como esta.


*Imagem retirada da net
São muitas as formas de pobreza e vários os indicadores que a definem. Porém, entre todos os pobres, as crianças espelham todo um mundo de desigualdades, de injustiças e de oportunidades perdidas para as quais não contribuíram.
Um mundo que lhes rouba a alma, para todo o sempre, a maior parte das vezes. Aprendem a não serem crianças desde tenra idade e, não raras vezes, a sociedade vem exigir reparos aos seus comportamentos marginais demitindo-se das suas responsabilidades quando fingiu não ver e omitiu, para sua comodidade, os odores que vêm das ruas.