
O VALOR DO VOTO

Justiça em Portugal

Fala-se como nunca de justiça em Portugal, mais grave ainda descredibiliza-se a justiça ou pior ela própria se descredibiliza, a justiça deixou de ser cega para ser paralítica com provavel associação de degenerescência progressiva grave vai precisar dumas mãos esterilizadas porque mãos limpas já serão demasiado contami...nadas. Esta autodestruição da justiça, e é privilégio dos mais poderosos, dos que estão para além da justiça. Num sistema democrático a justiça é um dos pilares fulcrais do seu bom funcionamento.
A tendência para a corrupção está implantada na natureza humana desde o princípio. A corrupção num sistema democrático acontece pela simples razão que a decisão de lugares de relevo são partidarizados e em torno dos partidos giram como satélites interesses e interesseiros que estrategicamente se colocam e trocam de lugares e favores. O próprio financiamento de partidos talvez seja o começo. Quão melhor é apercebermo-nos de que as origens da corrupção são insignificantes e inofensivas! Quando a riqueza (e o património) visível não tem suporte nas remunerações e outras fontes de riqueza declaradas? Então o Ministério Público deveria investigar, nomeadamente através das declarações fiscais ou outras obrigatórias. O cidadão indiciado é incriminado? Bem, antes de sentenciado tem todo o direito a se defender, explicar e provar que ganhou no euromilhões, recebeu herança do tio americano, etc., porque a presunção de inocência é inerente a um estado de direito.
Aos poucos a nossa sociedade está a desmoronar-se como um castelo de cartas. Os laços sociais estão a desaparecer, substituídos por um sistema de valores em que impera a vacuidade, o poder do mercantilismo e competitividade como forças motrizes - e não o são...
Pensem nisso.
Lúcia Dias
Construindo o futuro que desejamos
A classe política; grupo de pessoas que de uma forma ou de outra estão intimamente ligadas às decisões legislativas e executivas do nosso país, alguns mandatados pelo povo, outros encostados aos primeiros e assim sucessivamente; não são mais do que pessoas, nascidas e educadas na nossa sociedade, fruto da árvore social que somos todos nós. São portanto, reflexo das nossas virtudes e defeitos, dos valores que cultivamos, transmitimos ou abdicamos, das necessidades que temos vindo a criar e da inversão de prioridades que temos feito ao longo do tempo.Hoje, cresce a cada minuto o número de pessoas que se indignam com o estado em que tudo chegou, porque cada vez mais, são maiores as diferenças entre os que sobem e aqueles que servem de degrau e, por isso mesmo, descartáveis. Assim como os afectos que, lamentavelmente, também se transformaram em produto de consumo rápido, substituivel e perecível a curto prazo.
Apela-se a todas as vozes que não se deixem amordaçar e que lutem por si e pelos mais desprotegidos, para que a ninguém seja retirado o que, dignamente , lhes é devido e conquistado como um direito.
Mas, numa consciência cívica para uma cidadania verdadeiramente activa, é preciso fazer um pouco mais. E isso implica não só a luta pelos direitos, mas também a responsabilidade pelos deveres, deveres nossos, que são os direitos de outros e vise versa, num conceito intrínseco de liberdade, dignidade e justiça. É necessário ter a capacidade de olhar mais longe e acautelar a transformação do presente, no futuro que desejamos e que começa agora mesmo.
Como podemos desejar um futuro de igualdade e respeito uns pelos outros, em que as pessoas que escolhermos para nos governar não se deixem corromper pela ambição e poder, se ensinamos as nossas crianças ; a serem o eixo a partir do qual, tudo gira e tem de confluir a seu favor; a viverem na conquista fácil do prazer imediato, em que tudo é possível obter, não importando muito bem como; que tudo tem um preço e, portanto, a dignidade é coisa de somenos importância; que a palavra dada e o compromisso, podem mudar consoante o interesse que se tem ou não nas coisas; que o trabalho entristece e, contrariamente ao lazer, não produz alegria nem realização pessoal?!
Que futuro podemos desejar, quando ensinamos que os sucessos são nossos mas a responsabilidade dos fracassos é sempre dos demais; que o respeito não se conquista pela conduta e pela obra feita, mas pelo poder e influência que se exerce uns sobre os outros e que as minorias e os carenciados, são os fracos que vivem à margem, os coitados e os culpados de todos os males do mundo e por quem devemos ter apenas pena e dar a nossa caridade de vez em quando, porque nos fica bem?!
Como podemos desejar um futuro diferente deste presente, se não assumirmos que os valores com que educarmos agora os nossos filhos ( principios, palavras e exemplos), serão aqueles que veremos espelhados, um dia, naqueles que nos governarão e em todos os outros que serão também pais, educadores e cidadãos do mundo inteiro?!
Não podendo transformar o mundo, podemos através da educação daqueles que agora dependem de nós, assegurar que o futuro seja povoado por seres humanos melhores que aqueles que hoje, nos indignam, nos desrespeitam e nos envergonham tanto.
O ESTADO SOCIAL E OS NÚMEROS DA NOSSA VERGONHA

UM NOVO SILÊNCIO QUE É VOZ ACTIVA
AMOR EM TEMPO DE ESTIGMA
UMA QUESTÃO DE CONFIANÇA
Várias vezes nos interrogamos se devemos confiar em quem infringe as regras com que, bem ou mal, temos que conviver. Se podemos confiar bens a um larápio e que oportunidades podemos oferecer àqueles que, frequentemente, as desprezam.
Penso que aqui, mesmo aqueles com mentes mais abertas, têm dificuldades em se libertarem dos seus estereótipos cada vez que analisam o seu semelhante em contextos sensíveis à desconfiança.
Não vou acrescentar nada sobre confiar ou não confiar a não ser aquilo que praticamente todos sabemos: a desconfiança gera comportamentos negativos enquanto a confiança inspira responsabilidade e vontade de respostas que não desiludam.
O caso que vou contar passa-se num contexto de toxicodependência em que o preconceito é mais forte pois os consumidores de drogas não olham a meios para obterem o produto.
À sexta-feira tenho por hábito atender alguns angariadores de moedas ou de alimentos. Não indago o destino das moedas apenas procuro criar um laço de proximidade com quem já perdeu todas as referências.
Foi assim que conheci o (X). Nunca lhe perguntei o nome. Era muito jovem e débil. Por vezes aparecia-me de vestes ensanguentadas de se perfurar.
Numa quarta-feira encontro o (X) a roubar laranjas do expositor duma mercearia. Ele vê-me e corre sem abrir mão das laranjas. Corro atrás dele mas não o apanho. Porém penso: este não volta a aparecer-me à sexta-feira. Mas voltou. Olho para ele e pergunto-lhe:
- Não me viu correr atrás de si?
- Vi, responde ele.
- E porque não parou?
- Porque o homem da mercearia me bate e chama a polícia.
- Mas quem correu atrás de si fui eu. E nunca lhe bati nem chamei a polícia. Apenas lhe queria oferecer as laranjas.
Baixa os olhos, recebe a moeda e vai embora. Porém, no dia a seguinte, ouço-o tocar à campainha e digo-lhe de cara amarrada:
- Hoje não é sexta-feira.
- Sei que não é sexta-feira, responde-me ele. Mas não venho pedir. É que a senhora deixou cair a sua carteira ao pé do seu carro e venho entregar-lha.
E estende-me a carteira que tinha em numerário cerca de 400 euros e vários cartões bancários. Emocionada abro a carteira para o gratificar. Porém, ele recusa acrescentando:
- Hoje não é sexta-feira. Deixe-me ser decente consigo desta vez.
Ficámos amigos durante largo tempo até que desapareceu. Pergunto por ele mas nada consigo saber.
Dentro de mim (X) continua sem nome mas como uma lição de vida. Alguém que tendo perdido tudo conseguiu um reduto de decência que lhe deveria permitir uma nova oportunidade. Um reduto que muitos dos que são estimados e valorizados não conseguem ter.
CIDADANIA E SENTIMENTO
A ignorância atinge-se quando se pensa que se sabe tudo. A liberdade perde-se não só quando os outros no-la tiram mas quando nos tornamos escravos de nós mesmos numa fobia irracional de pensarmos que servimos os outros.
O Homem quis ser pássaro mas não consegue voar pelo seu próprio corpo. O Homem quis ser livre e de tão escravo não respira. É o Mundo que o materializa e que olha com cobiça. É o seu ego que não aceita subalternizações. E no entanto nunca foi tão subalterno de tão dependente.
O Mundo materializado levou-lhe os afectos. As tecnologias varreram-lhe as ilusões. As injustiças sociais das quais ele participa para proveito próprio, trazem-lhe depressões e amargura.
O prazer das coisas simples há muito foi evacuado da sua esfera de prazeres. Frequentemente interroga-se se o amor existe.
Então subsiste nestas perdas e descompensações, em ambientes degradados e em mercados que, ao invés de terem a tal mão invisível, tiveram tubarões que deixaram pegadas de fome e de sangue num mundo desordenado e desigual.
Um mundo com recursos para todos mas onde quase mil milhões de pessoas morrem à fome e onde os 500 mais ricos consomem recursos equivalentes aos de 46 milhões dos mais pobres.
Um Mundo em que ninguém é feliz nem mesmo quem explora. Porque a ganância e a materialização extrema só traz insatisfação e solidão. Porque os afectos criados na base dos interesses não são afectos.
Vamos à Farmácia Cidadania buscar fármacos para os nossos interesses? Vamos falar de Cidadania porque entrou na rotina ser-se ritual nestes conceitos que ficam bem no cartaz que tapa um sem número de ausências?
Ou vamos insistir na Cidadania-Sentimento, aquela que partilha e nos melhora por dentro?





