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DIA DA POESIA


NAVEGAÇÃO

Navegando
Em lágrimas
Passa
Pesada e densa
A barca da vida
Ao largo da esperança
E longe da alegria
Enquanto
No limbo do tempo
S´embota o gume
Dos nossos dias partilhados
Hora a hora
Com os afiados caninos
De todos
Os lobos resguardados
Nos olhos abertos
Dos mortos.

SÃO  BANZA
( " EM OURO CRU")

O Caos sob a forma de jardins coloridos, em escrita onde a inspiração é omissa.
Escrevo sobre nadas que o não são na realidade. Escrevo sobre sentires que outros não sentem, sobre dores que outros não têm. Escrevo porque gosto de escrever e sinto como se o teclado de letras fosse de notas musicais de um piano a ser dedilhado. Tento compor melodias de palavras a cada dia mais trabalhadas rumo ao modelo pretendido pelos puristas.
Hoje não quero falar sobre as guerras no mundo, nem sobre a fome. Deixo as convulsões sociais e o desespero das famílias.
Saio do mundo real e vivo o utópico mundo dos poetas. Vejo o clarear e o nascer do sol e ouço o cantar das rolas que anunciam o novo dia. Um melro de bico amarelo pousa em centenária oliveira de ramos secos que teima em viver. Sinto nas faces a brisa gélida da manhã como que a despertar-me para a vida.
Sento-me ao teclado do piano virtual e toco a melodia dos sentires. Escrevo sobre nadas e calo a revolta em notas musicais que saem como um grito abafado. Silêncios que a morte cala.
Escrevo para não esquecer. Escrevo para lembrar aquilo que gostaria de escrever.

Zeca Afonso





José Afonso deixou-nos em 23/2/1987.

Mas a sua mensagem , o seu exemplo e a sua voz são intemporais!

Viva José Afonso  e tudo quanto simboliza!

Viva a Liberdade!

SÃO BANZA

PERGUNTAS

Segundo li ontem(18/2/2011) num jornal, um garoto de treze anos esfaqueou a mãe porque esta o proibiu de utilizar a play station, dadas as suas más notas escolares.

Também fora noticiado há tempos o caso de um jovem de dezanove anos que ameaçara a mãe de morte se lhe não comprasse um automóvel.

Que sociedade é a que estamos formando?

Que Educação é a que vigora actualmente ?

Que futuro nos aguarda?

Estaremos todos já em loucura completa?


SÃO  BANZA

POBRES DOS NOSSOS RICOS


A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos.
Mas ricos sem riqueza.
Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados.
Rico é quem possui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro e dá emprego.
Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro, ou que pensa que tem.
Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
A verdade é esta: são demasiados pobres os nossos "ricos".
Aquilo que têm, não detêm.
Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros.
É produto de roubo e de negociatas.
Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram.
Vivem na obsessão de poderem ser roubados.
Necessitavam de forças policiais à altura.
Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia.
Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade.
Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem ...

MIA COUTO - Poeta moçambicano


Pub. Lídia Soares

O VALOR DA VIDA.


Não duvide do valor da vida, da paz, do amor, do prazer de viver, enfim, de tudo o que faz a vida florescer. Mas duvide de tudo que a compromete. Duvide do controle que a miséria, ansiedade, egoísmo, intolerância e irritabilidade exercem sobre nós.
Quando somos abandonados pelo mundo, a solidão é superável; quando somos abandonados por nós mesmos, a solidão é quase incurável.
Sábio é o ser humano que tem coragem de ir diante do espelho da sua alma para reconhecer os seus erros e fracassos e utilizá-los para plantar as mais belas sementes no terreno da sua inteligência.
Ser livre é não ser escravo das culpas do passado nem das preocupações do amanhã. Ser livre é ter tempo para as coisas que amamos. É abraçar, entregar-se, sonhar, recomeçar tudo de novo. É desenvolver a arte de pensar e proteger a emoção. Mas, acima de tudo, ser livre é ter um caso de amor com a própria existência e desvendar os seus mistérios.
Se os seus sonhos são pequenos, a sua visão será pequena;
As suas metas serão limitadas, os seus alvos serão diminutos;
A sua estrada será estreita, a sua capacidade de suportar as tormentas será frágil.
Os sonhos regam a existência com sentido.
Desejo que não tenhamos medo da vida, tenhamos sim medo de a não viver.
Não há céu sem tempestades, nem caminhos sem acidentes.
Só é digno do pódio quem usa as derrotas para alcançá-lo.
Só é digno da sabedoria quem usa as lágrimas para irrigá-la.
Os frágeis usam a força; os fortes, a inteligência.
Sejamos sonhadores, mas unamos os nossos sonhos com disciplina,
Pois os sonhos sem disciplina produzem pessoas frustradas.
Sejamos debatedores de ideias!
Lutemos pelo que amamos!

Lúcia Dias

NÃO SABEM O QUE É VIDA


Era o último dia de Agosto de há dez anos atrás. Fui acordada pelo Hotel pouco passava da meia noite para um voo de regresso que, supostamente, deveria sair às sete da manhã.

Só quando chego ao aeroporto do Sal me apercebo da temeridade de fazer o meu regresso neste dia. É que sendo o último dia de Agosto todos os cabo verdianos que vieram de férias à terra natal, regressavam neste voo da TACV, superesgotado de pessoas e de bens. No minúsculo aeroporto, onde mal cabiam os passageiros, amontoava-se de tudo um pouco num calor sufocante de pessoas e cheiros.

Despacho as malas e sento-me no chão aguardando o anúncio da partida. Mas o tempo passa e a hora de partida, constantemente adiada, estava agora nas 14 horas. Foi o que deu o prolongamento das férias e o meu fascínio por São Vicente. Agora era esperar sem pensar no tempo.

O meu olhar recai sobre uma cabo-verdiana mais velha que eu e bastante mais alta, vestida de azul.

Dirijo-me a ela e pergunto-lhe se vai no voo para Lisboa. Era um pretexto para entabular conversa.

Ela sorriu-me contente por esta companhia inesperada. Então confidencia-me a sua ansiedade por chegar a Lisboa e ver um filho que não via há 20 anos.

-Tinha 10 anos quando o entreguei a uma irmã minha para o criar. Não tinha como lhe dar de comer. Também não tinha dinheiro para o visitar. O dinheiro que juntava era para lhe mandar. Mas era pouco. E mais eu não tinha.

Não chora mas a voz chora por ela. Treme, fica rouca, mas os olhos estão secos. Secos como a paisagem e a falta de recursos.

Quer saber o que penso. Mas eu não sei pensar. Imagino apenas e fico triste. Adelina quer saber se acho que o filho a vai a reconhecer e se ainda será capaz de a olhar como mãe.

Eu falo. Preencho os silêncios mas nada digo. Como posso fazê-lo? Adelina olha para os turistas que, como eu, vêm de regresso e diz-me sem rancor:

- Não sabem o que é vida.

É uma frase que me entra na alma e me entristece. Uma frase que me fica a martelar até o avião aterrar na Portela.

Vejo a Adelina segurar as malas e dirigir-se à saída. Vejo um homem alto com um cartaz com o nome de Adelina. Vejo as lágrimas da Adelina soltarem-se finalmente. O homem olha para ela e continua a segurar o cartaz até que, finalmente, ficam a um passo, frente-a-frente. Mas não se abraçam. Vinte anos é realmente muito tempo.

Olho em volta as pessoas que vêem sem ver estes mundos diferentes e logo me ocorrem as palavras de Adelina:
- Não sabem o que é vida.

Lídia Soares

Sou Povo




Entre silêncios e gritos conformam-se uns revoltam-se outros. Ninguém se entende em casa onde a escassez de pão gera a falta de razão em discussão sem sentido. Espiga vazia de seara não semeada da qual esperamos fartos grãos. Letárgico, resignado e sofredor somos povo aceitador da sina da vida. Destino esculpido em pedras graníticas que são lei imutável porque queremos que o seja. Mudança desejada e esperada. País de fábulas e contos de princesas onde ao toque de varinha mágica tudo se transforma. Ilusão de crianças em adultos que o não são.

De que vale a liberdade quando se torna palavra sem sentido por não sabermos o que é. De que valem leme, vela e remos se nunca aprendermos a manejar embarcação à deriva em alto mar?
Religiosa e resignadamente aceitamos a esperança de que o paraíso prometido se nos apresente um dia, com a mesma convicção sebastianista a de que o salvador do povo finalmente surja em manhã de nevoeiro.
Falta-nos o saber de que somos vara de poder em fina haste de árvore, mas que unidos seremos fortes. Falta-nos matar a partidocracia e unirmo-nos aos movimentos de cidadania, que se vão tornando mais fortes face à revolta.
Espanta-me toda a energia despendida em encontrar culpados na saga em que alguns eleitores não puderam votar e que essa energia despendida não seja aplicada numa reflexão - resposta ao elevado número de abstencionistas.
Creio que todos sabemos a razão ser o descrédito da classe política. Os políticos também o sabem, mas não estão preocupados. Sabem que têm um eleitorado passivo, que se delicia com palavras doces de mudança, tão iguais às proferidas em eleições anteriores e que não operaram mudança alguma.
Seguro a vela erguida, seguindo sem rumo ao sabor do vento. Outros pegarão no leme e traçarão o rumo. A pouco e pouco cada um pegará no seu remo e remará. O barco move-se em mar chão por vezes e outras em mar de vagas, mas move-se.
Não sinto pena e muito menos asco, de um povo em que sou haste. Viajo na esperança da reacção para que a mudança possa acontecer. Grito para quebrar o silêncio da revolta sem medo ,para que outros oiçam e possam gritar também.
Não espero o rei salvador da pátria em manhã de nevoeiro, como solução para um povo.
Agir é preciso. Se for com alma e baseado na essência de um “acreditar”, tanto melhor.
R.A.