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O GOVERNO CAIU E ESTOU TRISTE

O Governo caiu. Era previsível, expectável e até desejável, face às convulsões sociais cada vez mais intensas. As pessoas viram-se devastadas por uma austeridade em nome de interesses que não são os seus. Aos jovens sem futuro, aos desempregados, aos proscritos, aos silenciados, juntaram-se cada vez mais descontentes. Um descontentamento que vem das situações criadas, das crises propagadas, mas também do logro de nunca se ter dito a verdade nem agido de acordo com a mesma.
Têm sido os mais pobres a pagar a crise. Os beneficiários do subsídio de desemprego, do RSI e os pensionistas que descontaram toda uma vida para terem uma velhice sem sobressaltos.
O Governo caiu mas eu estou triste. Vejo o meu País varrido por ventos que lhe arrancaram a alma. Vejo as pessoas, a esmagadora maioria, cada vez mais pobres e mais descrentes. Cada vez mais desprotegidas e inseguras.E sinto-me cansada. Cansada de ouvir que a culpa foi do outro. Cansada de que nos digam que estes sacrifícios e mais outros e outros nos levam a sair do túnel. Não aguento mais tanta hipocrisia. Os ricos continuam mais ricos e muitos deles sem se saber como (ou até talvez se saiba).
Quero para o meu País pessoas que tenham o mínimo para viverem com dignidade. Um Serviço de Saúde que chegue a todos os que dele necessitam. Quero para o meu País Igualdade de Oportunidades nas Escolas e nos acessos aos empregos. Quero para o meu País um desenvolvimento sustentável que permita acabar com a pressão humana sobre o litoral e as grandes cidades que só produzem desenraizamento, violência e solidão.Quero para o meu País uma Justiça que funcione e que não esteja sempre ao lado dos mais fortes. Quero para o meu País pessoas felizes por serem livres e exercerem a sua liberdade com respeito pelo outro. Quero para o meu País que acabem as escabrosas desigualdades sociais e que se combata a corrupção e o enriquecimento ilícito.
Se qualquer Partido, com assento na AR, ler estes meus desejos aposto que todos, um por um, se assume como sendo o mais capaz para os pôr em prática. Não há um único que diga que não faz ou não fará isto.
Por isso o Governo caiu e eu estou triste.

Lídia Soares


DIA DA POESIA


NAVEGAÇÃO

Navegando
Em lágrimas
Passa
Pesada e densa
A barca da vida
Ao largo da esperança
E longe da alegria
Enquanto
No limbo do tempo
S´embota o gume
Dos nossos dias partilhados
Hora a hora
Com os afiados caninos
De todos
Os lobos resguardados
Nos olhos abertos
Dos mortos.

SÃO  BANZA
( " EM OURO CRU")

O Caos sob a forma de jardins coloridos, em escrita onde a inspiração é omissa.
Escrevo sobre nadas que o não são na realidade. Escrevo sobre sentires que outros não sentem, sobre dores que outros não têm. Escrevo porque gosto de escrever e sinto como se o teclado de letras fosse de notas musicais de um piano a ser dedilhado. Tento compor melodias de palavras a cada dia mais trabalhadas rumo ao modelo pretendido pelos puristas.
Hoje não quero falar sobre as guerras no mundo, nem sobre a fome. Deixo as convulsões sociais e o desespero das famílias.
Saio do mundo real e vivo o utópico mundo dos poetas. Vejo o clarear e o nascer do sol e ouço o cantar das rolas que anunciam o novo dia. Um melro de bico amarelo pousa em centenária oliveira de ramos secos que teima em viver. Sinto nas faces a brisa gélida da manhã como que a despertar-me para a vida.
Sento-me ao teclado do piano virtual e toco a melodia dos sentires. Escrevo sobre nadas e calo a revolta em notas musicais que saem como um grito abafado. Silêncios que a morte cala.
Escrevo para não esquecer. Escrevo para lembrar aquilo que gostaria de escrever.

Zeca Afonso





José Afonso deixou-nos em 23/2/1987.

Mas a sua mensagem , o seu exemplo e a sua voz são intemporais!

Viva José Afonso  e tudo quanto simboliza!

Viva a Liberdade!

SÃO BANZA

PERGUNTAS

Segundo li ontem(18/2/2011) num jornal, um garoto de treze anos esfaqueou a mãe porque esta o proibiu de utilizar a play station, dadas as suas más notas escolares.

Também fora noticiado há tempos o caso de um jovem de dezanove anos que ameaçara a mãe de morte se lhe não comprasse um automóvel.

Que sociedade é a que estamos formando?

Que Educação é a que vigora actualmente ?

Que futuro nos aguarda?

Estaremos todos já em loucura completa?


SÃO  BANZA

POBRES DOS NOSSOS RICOS


A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos.
Mas ricos sem riqueza.
Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados.
Rico é quem possui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro e dá emprego.
Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro, ou que pensa que tem.
Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
A verdade é esta: são demasiados pobres os nossos "ricos".
Aquilo que têm, não detêm.
Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros.
É produto de roubo e de negociatas.
Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram.
Vivem na obsessão de poderem ser roubados.
Necessitavam de forças policiais à altura.
Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia.
Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade.
Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem ...

MIA COUTO - Poeta moçambicano


Pub. Lídia Soares

O VALOR DA VIDA.


Não duvide do valor da vida, da paz, do amor, do prazer de viver, enfim, de tudo o que faz a vida florescer. Mas duvide de tudo que a compromete. Duvide do controle que a miséria, ansiedade, egoísmo, intolerância e irritabilidade exercem sobre nós.
Quando somos abandonados pelo mundo, a solidão é superável; quando somos abandonados por nós mesmos, a solidão é quase incurável.
Sábio é o ser humano que tem coragem de ir diante do espelho da sua alma para reconhecer os seus erros e fracassos e utilizá-los para plantar as mais belas sementes no terreno da sua inteligência.
Ser livre é não ser escravo das culpas do passado nem das preocupações do amanhã. Ser livre é ter tempo para as coisas que amamos. É abraçar, entregar-se, sonhar, recomeçar tudo de novo. É desenvolver a arte de pensar e proteger a emoção. Mas, acima de tudo, ser livre é ter um caso de amor com a própria existência e desvendar os seus mistérios.
Se os seus sonhos são pequenos, a sua visão será pequena;
As suas metas serão limitadas, os seus alvos serão diminutos;
A sua estrada será estreita, a sua capacidade de suportar as tormentas será frágil.
Os sonhos regam a existência com sentido.
Desejo que não tenhamos medo da vida, tenhamos sim medo de a não viver.
Não há céu sem tempestades, nem caminhos sem acidentes.
Só é digno do pódio quem usa as derrotas para alcançá-lo.
Só é digno da sabedoria quem usa as lágrimas para irrigá-la.
Os frágeis usam a força; os fortes, a inteligência.
Sejamos sonhadores, mas unamos os nossos sonhos com disciplina,
Pois os sonhos sem disciplina produzem pessoas frustradas.
Sejamos debatedores de ideias!
Lutemos pelo que amamos!

Lúcia Dias

NÃO SABEM O QUE É VIDA


Era o último dia de Agosto de há dez anos atrás. Fui acordada pelo Hotel pouco passava da meia noite para um voo de regresso que, supostamente, deveria sair às sete da manhã.

Só quando chego ao aeroporto do Sal me apercebo da temeridade de fazer o meu regresso neste dia. É que sendo o último dia de Agosto todos os cabo verdianos que vieram de férias à terra natal, regressavam neste voo da TACV, superesgotado de pessoas e de bens. No minúsculo aeroporto, onde mal cabiam os passageiros, amontoava-se de tudo um pouco num calor sufocante de pessoas e cheiros.

Despacho as malas e sento-me no chão aguardando o anúncio da partida. Mas o tempo passa e a hora de partida, constantemente adiada, estava agora nas 14 horas. Foi o que deu o prolongamento das férias e o meu fascínio por São Vicente. Agora era esperar sem pensar no tempo.

O meu olhar recai sobre uma cabo-verdiana mais velha que eu e bastante mais alta, vestida de azul.

Dirijo-me a ela e pergunto-lhe se vai no voo para Lisboa. Era um pretexto para entabular conversa.

Ela sorriu-me contente por esta companhia inesperada. Então confidencia-me a sua ansiedade por chegar a Lisboa e ver um filho que não via há 20 anos.

-Tinha 10 anos quando o entreguei a uma irmã minha para o criar. Não tinha como lhe dar de comer. Também não tinha dinheiro para o visitar. O dinheiro que juntava era para lhe mandar. Mas era pouco. E mais eu não tinha.

Não chora mas a voz chora por ela. Treme, fica rouca, mas os olhos estão secos. Secos como a paisagem e a falta de recursos.

Quer saber o que penso. Mas eu não sei pensar. Imagino apenas e fico triste. Adelina quer saber se acho que o filho a vai a reconhecer e se ainda será capaz de a olhar como mãe.

Eu falo. Preencho os silêncios mas nada digo. Como posso fazê-lo? Adelina olha para os turistas que, como eu, vêm de regresso e diz-me sem rancor:

- Não sabem o que é vida.

É uma frase que me entra na alma e me entristece. Uma frase que me fica a martelar até o avião aterrar na Portela.

Vejo a Adelina segurar as malas e dirigir-se à saída. Vejo um homem alto com um cartaz com o nome de Adelina. Vejo as lágrimas da Adelina soltarem-se finalmente. O homem olha para ela e continua a segurar o cartaz até que, finalmente, ficam a um passo, frente-a-frente. Mas não se abraçam. Vinte anos é realmente muito tempo.

Olho em volta as pessoas que vêem sem ver estes mundos diferentes e logo me ocorrem as palavras de Adelina:
- Não sabem o que é vida.

Lídia Soares