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VALORES ANÓNIMOS

As sociedades desenvolvidas enfrentam, nos dias de hoje, outros desafios sociais que não se resignam às circunstâncias de matar a fome do corpo com alimentos, ou de ter um tecto com água ou luz para nos abrigar.



Com tantos avanços da ciência e da técnica, que permitem prolongar a vida e aceder a todo um conjunto de facilidades antes inimagináveis, as pessoas sentem-se mais individualistas e solitárias aumentando os casos de depressões, derivadas de um sem número de angústias, trazidas pela mesma mão que lhes mostrou o Eldorado.



Por exemplo, e segundo recente Relatório da Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, a insegurança no emprego, a necessidade de vários empregos e a intensificação do trabalho podem gerar stress profissional e colocar em risco a saúde dos trabalhadores que são confrontados com elevadas exigências emocionais e uma difícil conciliação entre a vida profissional e a vida privada. Isto para não falarmos nas situações de desemprego, cada vez mais frequentes e traumáticas, ou do trabalho precário sempre mal remunerado e sem perspectivas de futuro.



Mas, para além do mundo do trabalho e da sua ausência, há ainda há todo um sub mundo de dramas interiores, e de causas relacionadas com situações especiais, em que o sofrimento é solitário e continuado num caminho longo em que os apoios são insuficientes e, muitas vezes, tardam ou faltam.



Em sociedades demasiado padronizadas, em que os valores da solidariedade se confundem com os de uma caridade rotineira, sobreviver à diferença é uma luta heróica que muitos vão travando, no silêncio das suas dificuldades, acreditando que dessa luta algo resultará de proveitoso um dia.



Exemplos tocantes de pessoas que passam por situações de infortúnio e que encontram forças onde antes as não havia e que, depois de fragilizadas, por um dado açoite da vida, são capazes de iniciar um ciclo de construção.



Exemplos extraordinários e que não nos faltam. Assim queiramos debruçar-nos sobre eles.



Quero fazer uma referência especial a Mário Relvas que, há 20 anos, procura respostas para o autismo que atingiu o seu filho numa sociedade mais autista que a doença em si, e que discrimina tudo o que não padroniza mostrando-se incapaz de dar respostas legítimas a muitas das situações que as requerem. Uma sociedade que confunde solidariedade com caridade e que não sabe lidar com os sentimentos e os valores dos que são diferentes. Mário Relvas está cansado, algo desiludido mas não desiste. Também não se confina ao seu próprio problema. Ele sabe o que é viver conquistando cada milímetro como um grande percurso e, por isso, entende que outros ainda precisam dele e da sua experiência para continuarem a viver (AROMAS DE PORTUGAL – http://aromasdeportugal.pt/).




Outro exemplo de grande coragem e generosidade vem-nos de Raul Rudoisxis que, há 11 anos, se viu confrontado com o facto de ser portador de HIV e que, desde então, tem travado com a doença uma renhida luta. Porém, Raul não entregou os pontos nem cedeu ao desespero. Seja qual for a qualidade e o tempo do seu percurso, ele sabe que a experiência que tem com o HIV pode salvar outras vidas e ajudar pessoas que entrando em desespero, chegam a suicidar-se pelo abandono e discriminação de uma sociedade mal informada e egocentrista. Raul dedica-se, por inteiro, a estudar, informar e alertar para os perigos de contrair a doença porque, como ele próprio afirma, a sua vida só terá sentido enquanto ele puder ser útil a alguém. Mas Raul não está apenas com os portadores de HIV. Onde houver dor e situações difíceis, aí o temos pronto a apoiar, na certeza de que o seu problema o tornou um ser humano maior que descobriu em si valências que desconhecia (SIDADANIA – http://sidadania.blogspot.com/ ).



Outro caso, que importa também lembrar, é o da brasileira Odele Souza, que faz questão de manter viva a memória de Cristina e o Frederico que perderam a vida numa piscina do Aquaparque. É que Odele Souza passou por uma experiência que a marcará para toda a vida embora lhe tenha desenvolvido redobradas capacidades como ser humano: aos 10 anos a sua filha Flávia ficou com os cabelos presos no ralo da piscina do condomínio onde vivia provocando-lhe um coma irreversível que dura há 10 anos. A revolta de Odele contra a justiça brasileira, que tarda em ser justa e a apurar responsabilidades, deixando que casos, como este, possam repetir-se pela negligência, está patente na luta que trava, sem tréguas, e com determinação. Mas Odele não olha só para si e para a sua filha Flávia. Odele milita por todas as causas dos que sofrem, nas mais diferentes áreas, tendo criado ondas de solidariedade à sua volta que não param de crescer (FLÁVIA EM COMA –



Que estes exemplos de coragem nos incentivem a olhar à volta e envergonhem aqueles que, presos ao seu mundo frágil e efémero, acreditam que podem ser felizes enquanto outros sofrem, só porque, por mero acaso, ainda não foram chamados a grandes provações.



Que o Mário, o Raul e a Odele não estejam sozinhos e que a causa deles, símbolo de tantas outras, seja também a nossa para que possamos caminhar no sentido da nossa construção humana e do desenvolvimento social.

40 comentários:

amigona avó e a neta princesa disse...

Sabemos, e eles também sabem, que não estão sozinhos...acredito que a vida, às vezes, pareça dizer o contrário...também aqui há lugar para a solidariedade...sabemos que outros exemplos podíamos descrever...como dizes são valores anónimos...muita gente por aí dá o seu melhor em causas próprias mas outros há que o fazem porque acreditam, sinceramente, que a sua passagem por aqui tem que ter um significado solidário e participativo...beijos, amiga...

Olá!! disse...

E a ti um bem haja por revelares esse sentimento solidário...
Estou certa que os 3 mencionados sentem o carinho das tuas palavras.
Beijosssssss

Mário Relvas disse...

Olá Lídia,

agradeço o seu empenho livre e desinteressado por causas esquecidas nas prateleiras do sótao do pensamento humano e de quem governa.

Há gente solidária, mas hoje em dia os problemas pessoais por vezes não deixam ver os grandes problemas de outros.

O meu amor e da minha mulher pelo BRUNO tem sido o motor da nossa vida, mesmo que alguns nos tentem -e têm tentado- boicotar para sermos mais uns integrados no deixa andar.

Abraço amigo

SILÊNCIO CULPADO disse...

Mário
O que se pode fazer por esta causa?
Diz e iremos em frente.
Abraço

Joseph disse...

Todos juntos nunca deremos demais para apoiar os grupos que sofrem na pele a marginalização, a solidão e as dificuldades de sobrevivência.
É uma luta como tu dizes. pela dignidade, pelos direitos e pelos valores, e que não pode ser confundida com a caridade.

sol poente disse...

O SOL POENTE é um blogue de causas, solidário com estas que aqui apresentas, e com muitas outras.

O Sol Poente é um blog que conta com as parcerias de:

Lídia-Silêncio Culpado
Elsa/Laurentina - Marginal Zambi
Rosário/Amigona - Instantes de Vida
Raul - Sidadania
Sílvia - Jogos Com Matemática
Odele - Flávia Vivendo em Coma

No próximo dia 14 de Fevereiro apela-se a uma postagem colectiva de apoio à inocência e contar a pedófilia.

O Guardião disse...

Por vezes iludimo-nos julgando que os nossos problemas são os maiores, quando basta olhar para o lado e ver que há quem enfrente outros ainda mais difíceis, e que uma palavra ou um simples gesto dão renovadas forças para os enfrentar.
Cumps

Mário Relvas disse...

Pode ser tudo feito amiga Lídia.

Divulgação para começar.Divulgar, divulgar...

Tenho em mão coisas que poderão ser interessantes.

Falaremos mais tarde

abraço

PS: tiraste o capuz??

SILÊNCIO CULPADO disse...

Mário
O capuz é do Carnaval.
Aguardo ideias para pôr mãos à obra.
Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Mário
O capuz é do Carnaval.
Aguardo ideias para pôr mãos à obra.
Abraço

JOY disse...

Temos têndencia para valorizarmos em demasia as pequenas coisas que no dia a dia nos corre mal,ao lêr este post e confrontados com estes casos e a força que estas pessoas demonstram para ultrapassa-los devem para nós ser exemplos de coragem e perseverança.Lidia mais um vez parabéns por mais um post de qualidade .

JOY

Alice Matos disse...

Exemplos de grande coragem...

Quando puderes passa pelo Detalhes, colhe o selo de amizade sincera e guarda-o onde preferires...

Beijinho...

Odele Souza disse...

Lídia,
Muito obrigada pela referência ao blog de Flavia. É gratificante ver pessoas mostrando solidariedade para com aqueles que convivem com a dor, na sua dimensão maior. É gratificante ver pessoas mostrando respeito e não pena por nós. Muito obrigada por este apoio tão importante para que possamos nos sentir mais fortes e seguir lutando. Â solidariedade é mágica: Atravessa fronteiras, encurta distâncias e aproxima as pessoas.

Fique com meu carinho.

António de Almeida disse...

-Julgo que todos somos solidários para com causas como as aqui apresentadas. Na realidade estamos todo o dia demasiado ocupados, para nos apercebermos, até que o azar nos bate á porta.

Louise disse...

Este último comentário da Odele de Souza releva um aspecto muito importante destas campanhas: a procura de direitos e a recusa de sentimentos de comiseração.
A Lídia foi muito cautelosa e afirmativa também neste aspecto
A sociedade tem deveres, que não está a cumprir, e há valores que têm que ser reconhecidos porque a vida é um direito e a dignidade não pode continuar a ser um privilégio não extensivo a todos.

ABEL MARQUES disse...

Lídia
Aprecio a forma como és solidária e apresentas os casos. Não apelas ao coitadinho e marcas aquela posição que se impõe: solidariedade é diferente de caridade.
Os grupos atingidos por situações anómalas têm direitos e as sociedades e as instituições deveres para com eles.
É isso mesmo.

Å®t Øf £övë disse...

De silêncio este blogue só tem mesmo o nome, porque ao ajudares a divulgar estes blogues, e estas causas, estás a levantar a tua voz bem alto, e a ajudares para que esta sociedade tão egocentrista, possa seguir um caminho diferente, e de ajuda ao próximo.
Bjs.

Nilson Barcelli disse...

Há imensos heróis anónimos que lutam e vencem as agruras que a vida lhes reservou.
Os exemplos que deste podem ser multiplicados por muitos.

Parabéns por este post. Tocas num aspecto, aliás dois, se separarmos a insegurança das desgraças, que nos aflige a todos, mas que infelizmente pouco ou nada podemos fazer individualmente para alterar as coisas com algum significado.

beijinhos.

M.M.MENDONÇA disse...

Realmente este blogue de silêncio não tem nada e de culpado muito menos.
É aliás um exemplo de que a blogosfera pode ter um papel positivo e de que a liberdade de comunicar pode ser valiosa e unívoca.

G.BRITO disse...

Mário, Raul, Odele nunca estarão sozinhos enquanto houver espaços como este.
Muita gente que por aqui passa irá ter convosco, acreditem.
Muita força, a luz há-de chegar.

O Árabe disse...

Passando para deixar o meu abraço, amiga. E os parabéns pelas nobres causas que abraças!

Tiago R. Cardoso disse...

Excelente ver que existem pessoas que todos os dias lutam contra grandes adversidades e se mantem firmes.

Pessoas que mesmo longe da ribalta e das luzes dos média, dão um grande exemplo e contribuem enormemente para melhorar a nossa sociedade.

Causas a quem vale a pena ser solidário, muito bem...

Mário Relvas disse...

Lídia não consigo abrir -opinião no Notícias da Manhã.

Aproveito para dizer que o link para a "Flavia vivendo em coma" não está correcto.

abraço

Sheila disse...

Excelentes exemplos de coragem que aqui são relatados.
São realmente Valores Portugueses anónimos que chamam a atenção para todas as causas em que o Estado e a sociedade civil estão a falhar.
A cidadania é isto, precisamente.

quintarantino disse...

Notável o labor que aqui se desenvolve em prol de causas e pessoas concretas. Infelizmente os tempos que correm fazem com que quase sempre se encarem as pessoas e os seus problemas com uma frieza cortante.
Lídia, bem sabes o quanto te estimo, mas não posso deixar de aqui deixa de viva voz o apreço e a admiração que te tenho pelo esforço que fazes de dar voz a quem a não tem.

José Miguel Gomes disse...

Para onde corremos nós? Para onde...

Fica bem,
Miguel

Olá!! disse...

Deixei uns pequenos mimos para ti, Lidia e para todos os que partilham este espirito de solidariedade contigo... podem recolhe-los no meu cantinho
Obrigada por SEREM
Beijos

parvinha disse...

Passei só para dizer que tem um prémio merecido no meu cantinho, Parabéns pelo seu trabalho.

Olá!! disse...

Lidia, não te esqueças do "Uma mulher que me faz pensar"...
Beijosssssss

herético disse...

"temos ouvidos e vemos,não podemos ignorar..."

é o que me ocorre dizer, perante a multidão de "gente descartável" que esta sociedade vai atirando para a valeta. cada vez mais...

abraço.

A Flôr disse...

Homens e Mulheres de coragem e de fibra.. que não se deixam abater.. antes pelo contrário.. fazem das adversidades causas para crescerem e ajudarem outros a crescerem....

Acabei de ver um vídeo no cantinho do Mário Relvas, do Tiagolas, um Menino-homem rodeado de tanto amor, mas que os pais têm uma preocupação constante e legitima... o que será do nosso filho, quando um dia partirmos?!.. esta preocupação é comum a pais de pessoas diferentes...

Estou feliz por ter "descoberto" estes vossos cantos.... estou a gostar imenso! Obrigado pelas vossas partilhas!

Flor com admiração e já um enorme carinho
Boa Sexta-feira!

DS disse...

Estes são exemplos de grande coragem, esperamos não ter que prestar provas tão difíceis para despertar para uma vida solidária e com sentido. Preocupamo-nos com tão pouco por vezes, quantas tempestades feitas em copos de água! Todos os dias deveriamos nos lembrar de como o mundo é vasto e como somos pequenos!
Bjos!

joshua disse...

Lídia, é por textos como este e por súmulas de casos como esses que foste elencando e aos quais foste dando voz que o teu blogue é uma inspiração para muitos de nós: tu colocas a tónica na questão mais premente dos tempos que vivemos. O retrocesso do trabalho e dos seus direitos à linha selvática da exploração e da escravidão encapotadas na maioria dos casos ou sob a tutela das novas leis que se vão tecendo.

Deixa-me recordar o último aluno excepcional que tive ainda este anos lectivo, na última escola em que leccionei, antes de esta longa pausa a que me remeto: indubitavelmente um portento no domínio cognitivo das mais diversificadas tarefas.

No entanto, uma perfeita pedra de gelo em semsibilidade e humanidade, frio e pragmático, no que toca ao reconhecimento do caminho que actualmente se trilha neste domínio do trabalho: o Diogo, se subscrevia integralmente as políticas 'reformistas' em decurso no nosso País era por admirar o pulso forte e inflexível do PM, «finalmente», dizia ele. No entanto, o Diogo não tinha dentro dele o dom da solidariedade, da compaixão, da verdadeira intreajuda no seio da turma. Recusava-se, dentro da sua liberdade, a qualquer espécie de apoio pontual aos colegas mais deficitários, sendo certo que alguns deles abusavam da preguiça.

O Diogo, com o seu sucesso educativo a tender para o absoluto, ainda me assusta e me enche de pesadelos pelo seu gelo, apesar de o não ver nem o ter mais como aluno-âncora no meu dia a dia na sua turma de 10-º. Aquela sua frieza. Aquele seu calculismo e inexpressividade perseguem-me como certamente aos sobreviventes judeus a crueldade dos seus algozes.

Nunca ria das minhas piadas. Nunca chorava com as minhas mágoas e as dos outros, aquelas que eu relatava ou fiz por que os seus colegas relatassem. Era aquela coisa-gente, ali, inexpressiva, robótica e eficiente, irrepreensivelmente eficiente.

Tenho pena da frialdade desumana do Diogo e preocupa-me que se viva assim, ainda que com 15/16 anos, sem a percepção da enorme injustiça de que se faz a vida hoje, de como o oportunismo triunfa e mesmo as políticas que se deveriam pautar por humanizar-nos, submetem-nos antes subversivas e subrepticias à selva do poder aquisitivo do dinheiro, selvátivo capitalismo.

Diz-me que ele é um caso isolado. Dizes, minha boa Lídia!

PALAVROSSAVRVS REX

amigona avó e a neta princesa disse...

Consegui, Lídia (tu sabes!)...obrigada...e parabéns pelo artigo - mais uma vez...beijos...(gostei muito de ler o comentário do Joshua. Aqui, no teu canto, gosto de o ler...mas enfim isso é um problema meu...)

Odele Souza disse...

Lidia,

É muito positiva a publicação deste artigo em um jornal de Lisboa, pois é algo que vai além do blog. Muito obrigada Lídia por seu apoio na divulgação de casos, como os citados no seu post, entre eles, o caso de Flavia. Este apoio e solidariedade são fundamentais para que tenhamos forças de prosseguir nessa luta onde as dificuldades são uma constante.

Pra você minha gratidão e carinho.

Um beijo, Lidia.

Pata Negra disse...

Exemplos não faltam, que não nos limitemos aos que se aventuram na mediatização. Infelizmente o que falta é aprendermos a tratá-los e a exigirmos que sejam tratados com a atenção que merecem.
Um abraço solidário

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra
Não entendas mal a mediatização. As pessoas procuram mediatização como forma de pressão sobre governos e instituições que se marimbam nos seus direitos.

Mário Relvas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mário Relvas disse...

A mediatização, cá da minha parte, é apenas como sensibilização.É um alerta para que se olhe o autismo. Para que as pessoas saibam que aqueles meninos, jovens não são mal ou bem comportados, são AUTISTAS!

Traz-me custos e sacrifícios pessoais, pois podia estar encostado e não me encosto.

Isto é uma resposta ao pata negra que cumprimento aqui.

O AUTISMO EXISTE!!

saudações

René disse...

O que não se comunica não existe. É preciso dar a conhecer.