* Imagem retirada da net
Sempre defendi que devemos ajudar quem precisa e nunca aceitei o argumento de que o embuste, inerente a certas necessidades, fosse argumento para esconder as minhas mãos. Claro que não posso ajudar todos nem sequer muitos. Mas há sempre alguns que me tocam à campainha, e são sempre os mesmos, conhecidos na gíria entre os meus amigos como os meus “clientes” e a quem dou uma pequena ajuda independentemente de saber que dois deles são toxicodependentes.
Como dizia o grande Sousa Martins “Antes enganar-me dando uma moeda que vá alimentar o vício, do que negá-la a quem dela precise para alimentar a fome.”
Porém tenho “clientes” certos e não admito aumentar o número que estabeleci como meu limite.
Por volta das 9h-00m oiço a campainha e entreabro janela. Quem tocava não tinha ar de pedinte bem pelo contrário poderia ser tomado por quadro aposentado duma grande empresa. A camisa de xadrez vermelho e creme, com calças cremes tudo de boa qualidade e impecavelmente limpo, os cabelos brancos tratados, os sapatos de cabedal castanho luzidios, nada levava a supor que era um pedinte mas de facto era-o.
Os olhos azuis tristes e suplicantes, a voz educada e terrivelmente rouca, deixavam passar o drama duma vida que deslizou do alto para as dificuldades de sobrevivência. Disse-me que o dinheiro era para comprar remédios.
Podia ter dito outra coisa que, subitamente, senti que o sol era frio e despejei nas suas mãos o que tinha na carteira e que por sinal era bem pouco.
Agradeceu-me e desculpou-se. Na rua a sua figura alta e esguia tentava em vão ficar erecta. Os passos pesavam a cada porta.
O fim duma vida provavelmente de trabalho, provavelmente de sonhos e oportunidades perdidas. Mas não se confundia com um mendigo. Nem os meus cães lhe ladraram como costumam com os outros pedintes.
Quem pudesse acabar com a caridade que obriga a pessoa a inclinar-se quando estende a mão e devolver a dignidade ao sol poente e a quem nele caminha...