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Era uma vez...


Era uma vez uma vez uma árvore, que seria igual a todas as árvores não fosse a particularidade de ter uma só folha. Nasceu de uma semente mais pequena do que um grão de areia e foi crescendo em terra fértil criando raízes e tornando-se forte resistindo a todos os vendavais que a fustigavam. Todos olhavam para ela por ser diferente de todas as outras árvores. A folha verdejante tornou-se enorme e era o único sinal de vida naquele tronco enorme. Deu frutos como qualquer outra árvore e foi sombra para viajantes que descansavam debaixo dela.

Os anos foram passando e a folha fustigada pelo granizo e pelas pragas, foi ficando esburacada. Notam-se as nervuras e todo um esqueleto que lhe permite viver. Aqui e além restam pedaços intactos que continuam com a verdejante vivacidade de outrora.
Já poucos olham para ela e aqueles que a olham vêem-na como um prenúncio de morte. Consideram-na inútil por já não dar sombra e não frutificar, quando ela revela a alma de toda a sua estrutura. Um dia cairá e com ela o tronco que lhe sustentou a vida permanecerá de pé. Todas as árvores morrem de pé e a árvore de uma só folha não é excepção.
Olho a folha despojada de toda a sua verdura como se fosse uma toalha de renda onde cada nervura é uma obra de arte trabalhada por experiente tecelão.
Vejo semelhanças entre a folha de uma árvore diferente e a vida de qualquer ser humano.
Vejo diferenças também, sendo que a mais notória é a das árvores morrerem de pé e os seres humanos morrerem em qualquer posição.
Uma folha que revela a beleza da alma quando outra beleza não tem para mostrar. Uma folha que é toalha de renda e teima em enfeitar a mesa da vida.
Raul Almeida

4 comentários:

São disse...

Só que os seres humanos, na sua maioris, têm uma certa dificuldade em enxergar a beleza que se esconde nas ra+izes e nas nervuras...

Um abraço.

manuel marques disse...

Passei para desejar um bom fim de semana.

Beijo.

Lúcia Dias disse...

Desde sempre, a árvore tem sido um símbolo de força, crescimento, vigor e eterna renovação da vida.
As árvores são seres vivos tais como nós. Possuem a capacidade de comunicar com as pessoas, curar as suas almas e os seus corpos.
Sem dúvida...as árvores morrem de pé, mas eu acredito que há várias formas de morrer e...quando chegar a minha vez, o meu corpo pode tombar, mas algo dentro de mim, morrerá de PÉ...Como as ÁRVORES.
Grata Raul, por este lindo momento de reflexão.

Lúcia Dias

Maria João disse...

Uma folha que não deixará nunca de ser vida e seiva a correr-lhe nas veias, enquanto houver memória nos homens e humanidade nos gestos.

Excelente, Raul!

Um beijinho