
A toxicodependência e o tráfico de drogas são, sem dúvida, dos problemas fundos e incontroláveis do mundo contemporâneo.
Serão, segundo estatísticas, mais de 200 milhões, em todo o mundo, os que consomem drogas ilegais tendo o seu tráfico experimentado um crescimento ímpar nas três últimas décadas do século XX, sobretudo o da cocaína com particular enfoque na América Latina onde a baixa dos preços das matérias-primas nos anos-70, nomeadamente do café, cacau e algodão, empurrou milhões de camponeses para uma produção intensiva de folha de coca que pretendia contrabalançar os deficits de produção indispensável à sua sobrevivência.
Na Bolívia, os mineiros que só na COMIBOL-minérios viram o desemprego atingir os 75% tornaram-se nómadas forçados passando a deslocar-se com as suas barracas à procura de emprego e acabando por juntar-se aos camponeses que já sobreviviam da plantação ilegal de coca. Actualmente a coca representa qualquer coisa como 75% do PIB da Bolívia. É assustador pensar na sua produção a tão grande escala e igualmente assustador pensar o que sucederia a esta população se de repente a plantação da coca deixasse pura e simplesmente de existir.
O narcotráfico é, no mundo presente, um dos negócios mais lucrativos. A sua rentabilidade é da ordem dos 3.000%. Os custos de produção representam 0,5% e os de transporte gastos com a distribuição cerca de 3% em relação ao preço final de venda. Este negócio expande-se à sombra da livre circulação de capitais, dos paraísos fiscais, na progressiva eliminação das fronteiras, da impunidade com que as organizações criminosas actuam, do sigilo bancário, do contínuo branqueamento de capitais onde os valores provenientes do tráfico de droga são convertidos em importantes activos pelos mais insuspeitos grupos económicos.
Estima-se que existam, em Portugal, mais de 100.000 toxicodependentes com uma larga percentagem ligados à cocaína contrariando a tendência generalizada para outro tipo de drogas sintéticas, e que se explica em parte pela posição geográfica de Portugal que, tal como o sul de Espanha, é um corredor de passagem das drogas vindas por mar de Cabo Verde e da América Latina.
Apesar do combate e das apreensões a nível local das drogas ilícitas a sua expressão a nível global é nulo ou por demais insignificante. Tendo em conta os milhões que geram e os interesses que encobrem todas as operações desencadeadas pecam por ingénuas quando todo o polvo se estende e alimenta num quadro de deterioração das condições de vida que ora fomenta ora se demarca mascarando de humanismo a desumanidade que o leva a alimentar-se do sangue e da pobreza.
Os mesmos que injectam a morte e a destruição são também os que defendem o negócio privado do tratamento e da reinserção social quais lucros paralelos e complementares duma realidade indigna e por demais cruel.