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ESPERANÇA NUM HORIZONTE TRISTE



A esperança é a última a morrer mas também morre. Só que quando a esperança morre em quem com fé porfia, os braços não pendem e outros caminhos se constroem. Permitir que nos levem a esperança sem que nada façamos, não seria digno de sermos gente. Gente com história e com passado. Talvez não tão glorioso como aquele em que nos fazem crer mas um passado de não confinação.

O ano começa com a recessão da economia que já existia e que continua. E com aquelas notícias a que estamos habituados e que fazem que os nossos amigos, familiares e companheiros nos digam a propósito de tudo e de nada perante os acontecimentos que vão chegando ao nosso conhecimento.

- Eu não te dizia que o Armando Vara foi promovido na CGD já depois de ter saído para o BCP? Vê lá se não foi verdade.

- Eu não te dizia que o desemprego ia aumentar e que as promessas de José Sócrates não passavam de fogo-fátuo? Claro que a culpa é da crise. Tem sempre que haver um culpado e nenhum melhor que a crise para transportar o fardo às costas.

Estamos mais pobres, mais endividados, mais inseguros e mais espoliados. O país está envelhecido e as crianças que vão nascendo nascem muitas delas sem as mães terem condições para as criar. Milhares de bebés nasceram no ano passado filhos de toxicodependentes, vítimas de violência doméstica e com problemas de saúde mental.

Muitas das famílias que os receberam são disfuncionais ou têm dificuldades tão grandes e de tal ordem que chega a haver situações em que os hospitais recusam entregar os filhos às mães quando estas saem da maternidade.

- Eu não te dizia que vamos de mal para pior e que não há remédio para a crise enquanto se pretenderem lançar remendos para deixar tudo na mesma? Sabes que 75% dos pensionistas têm menos que um ordenado mínimo? E que de 1.600.000 pensionistas nestas condições só cerca de 160.000 recebem o complemento solidário para idosos?

- Eu não te dizia que um quinto dos portugueses vive com menos de 360 euros por mês? E que 32% da população activa entre os 16 e os 34 anos seria pobre se dependesse só do seu trabalho?

- Eu não te dizia que… Não, não vale a pena continuar. Os exemplos são por demais evidentes. Que consciência se cala contra este afundar? A minha não. Porque há esperança quando se perde a esperança. Não é o mundo feito de renovação?

- Sim, e então? Não temos só desgraças. O grande empresariado tem tido lucros fabulosos e houve quem ganhasse milhões na Bolsa. Também os nossos gestores são dos que mais ganham na Europa. Vamos ter um TGV que nem a Noruega, país tido como dos mais desenvolvidos, se atreveu a construir.

Nós somos felizes assim na nossa pequenez. Se o rendimento dos dois milhões dos mais ricos é 7 vezes o dos dois milhões dos mais pobres é porque uns são políticos, banqueiros ou corruptos e os outros são apenas trabalhadores ou com vontade de trabalhar. Tudo isto é natural. Pertencemos à U.E., vivemos em democracia e vamos continuar a votar para que nada mude.