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QUANDO A JUSTIÇA ACONTECE


O Tribunal de Trabalho da ONU deu razão a uma funcionária portuguesa, Maria Veiga, que foi despedida em 2006 depois de ter sido contratada para investigar um caso de alegada corrupção na Organização Meteorológica Mundial (a agência das Nações Unidas para as questões do clima). Segundo a agência Associated Press, o painel de oito juízes decidiu atribuir à portuguesa indemnizações no valor de 200 mil dólares (perto de 142 mil euros) por «danos morais e materiais».

O caso começou em 2003 quando surgiram as suspeitas de desvio de milhões de euros na Organização Meteorológica Mundial (OMM) por um antigo responsável que teria fugido para o Sudão. Maria Veiga foi então mandatada pela própria OMM para fazer uma auditoria interna e averiguar se havia fundamento nas alegações

A portuguesa confirmou o desvio de fundos e terá mesmo descoberto que algum do dinheiro desaparecido teria sido usado para influenciar votos nas eleições para escolher o novo secretário-geral da organização, em 2003, uma acusação que a organização sempre negou.

Acabou por ser dispensada em 2006, depois de cerca de três anos de trabalho, e apresentou uma queixa contra a OMM por despedimento sem justa causa e assédio moral, junto do tribunal administrativo da Organização Internacional de Trabalho, que tem competência para julgar casos de funcionários da ONU.

Maria Veiga diz que recebeu telefonemas intimidatórios e ameaças de processos legais.

O tribunal considerou agora que houve despedimento sem justa causa e condenou a OMG a pagar à funcionária os salários de Novembro de 2006 a Maio de 2007, acrescidos de juros.

A porta-voz da OMM, Carine Richard-van Maele, já disse que a agência vai acatar a decisão.

Dedico este post a todos os injustiçados deste País onde a justiça demora e não se cumpre para que acreditem que um dia talvez a justiça também aqui aconteça.

Faço um particular realce a todos os que procuram denunciar corrupções e branqueamento de capitais e são por isso perseguidos bem como aos trabalhadores que não recebem os seus salários porque a nossa justiça permite que haja patrões que não cumprem as suas obrigações para quem os sustenta.



FOI O PRETO

Vivemos na sociedade da discriminação. Uma sociedade que se assume como evoluída mas que discrimina, de forma cruel, quem não corresponde aos seus padrões.

Não me refiro à discriminação dos que prevaricam mas sim a uma discriminação que recai sobre características físicas sejam elas étnicas, de deficiência, de sexo ou de aptidões.

Esta forma desumana de apontar o dedo é corroborada por uma comunicação viciada no serviço ao poder que a sustenta e a paixões fáceis que prendem, vinculam e facilmente se incendeiam.

Muitas minorias étnicas que vivem nos subúrbios das grandes cidades desenvolvem hábitos de violência que não praticam nas suas terras de origem. O desenraizamento cultural, a violência das condições de vida propiciam marginalizações de costumes que se transformam nos delitos que todos conhecemos e a comunicação social tão profusamente noticia. Porém estas notícias, ao invés de contribuírem para o esbatimento da situação são, em si, uma fonte duma outra violência: a discriminação fortuita que acaba por justificar para o discriminado os actos de violência que a si próprio associam.

É frequente, a propósito de tudo e de nada, ouvirmos ou lermos na comunicação social: x indivíduos de raça africana, ou de etnia cigana, ou do leste europeu, roubaram ou assassinaram, como se para o conhecimento do acto em si fosse importante este tipo de identificação. Identificação que já não é feita quando se trata dum europeu comum e ainda menos quando esse europeu é natural do País onde a noticia é produzida.

O que relato pode parecer de somenos importância mas não é. A formação da opinião pública é assim trabalhada e muitas pessoas concluem que determinada etnias têm atributos de violência e de inferioridade que as torna propensas ao crime organizado. Poucos pensarão nas condições de vida bem mais responsáveis que a cor da pele ou qualquer outra característica menos valorizada.

Recordo que um dia, ao sair de casa para uma caminhada pela avenida paralela à linha do comboio, ter sido avisada, por uma transeunte, que andava por ali um grupo de cinco “pretos” a roubar e a assaltar e que, por isso, tivesse cuidado.

Não tardei em cruzar-me com o referido grupo que vinha em louca correria e que atirou ao chão uma mala furtada. De etnia africana era apenas um.

E assim se marca com um ferrete, independentemente da culpa e das aptidões, conotando com características censuráveis outras pessoas de bem que sofrem uma discriminação injusta para a qual em nada contribuíram e que não conseguem mudar.

Mas não se diz “foi o preto” quando se refere um jovem nigeriano que ganha a vida a vender lenços de papel junto a um semáforo em Sevilha e que tendo encontrado uma carteira com 2.700 euros, um cheque no valor de 870 euros, um livro de cheques, uma caderneta de aforros, assim como documentação pessoal e empresarial, a foi entregar à polícia que posteriormente encontrou o seu dono, um sevilhano de 68 anos que a tinha perdido quando circulava de mota na estrada Esclusa para realizar uns pagamentos (PD 13-08-08).

Mas eu digo, foi o preto, o autor de tanta integridade que nos faz acreditar nos valores de um mundo em que tantas vezes descremos.

E digo “foi o preto” quando penso nessas pessoas maravilhosas como Eusébio, Francis Obikwelu e Nelson Évora, entre outros, que tanto contribuíram para o prestígio de Portugal no mundo. E digo “foi o preto” quando penso em todos esses imigrantes que trabalham e ajudam a construir um país do qual se sentem irmãos apesar da guerra.

E digo foi o preto, ao servente de pedreiro na casa em reconstrução ao lado da minha, que trabalha com dedicação e faz um sorriso rasgado quando me cumprimenta.