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UM BIPOLAR NUMA VIDA A DOIS




Texto de Maria N.


Por vezes ficamos surpreendidos com acontecimentos que não deviam surpreender-nos. E isto porque os sinais estavam todos lá à espera de serem lidos.

Quando me casei, há mais de três décadas atrás, ainda não se falava em doentes bipolares. A expressão vaga, "sofre muito dos nervos", dava para tudo. E era exactamente o que se dizia do meu ex-marido, que sofria muito dos nervos. Havia quem atribuísse aqueles nervos destemperados ao facto de ter estado na guerra mas a minha sogra confessava-me que ele sempre fora assim de pequenino. Ou estava muito eufórico ou então chegavam-lhe os nervos e, por vezes, se lhe diziam algo que o contrariasse, ficava violento.

Aconteceu ter batido ao médico da terra por algo que este fez, e não devia ter feito, e também a outros às vezes por situações bem curiosas.

O meu ex tinha um sósia na terra onde nos conhecemos. Era um pintor, muito malandreco, que andava sempre a arrastar a asa a mulheres casadas. Ora acontece que o marido duma das amantes desse tal pintor um dia, por engano, agarrou o meu marido pela gabardina e diz ah M….. agora é que não me escapas. E deu-lhe um murro na cara. Embora tivesse percebido que o murro não era para ele o meu ex-marido revidou de tal forma que deixou o outro estendido.

Também, na vida a dois, depressa me apercebi que ele ou estava muito bem ou estava muito mal mas e, mesmo quando estava muito bem, era difícil acompanhar toda aquela energia tresloucada.

Várias vezes fui aconselhada a levá-lo a um especialista mas era sempre difícil abordar esta questão embora ele admitisse que não conseguia ter um comportamento estável como as outras pessoas.

Porém algo veio alterar completamente o rumo dos acontecimentos. Foi num dia em que decidimos fazer jardinagem e mudar algumas plantas duns vasos para outros. O meu marido deu-me um martelo e aconselhou-me a partir os vasos, donde as plantas deviam ser retiradas, devido às muitas raízes que continham.

Comecei a tarefa mas as batidas do martelo enervaram-no de sobremaneira. Chega ao pé de mim transtornado e diz-me: - pára com isso! Começo a rir e respondo: - porque hei-de parar, não disseste para eu os partir?
E continuo a martelar os vasos. Com os olhos fora de órbitas ele agarra-me por um braço e abana-me com força. Eu pergunto-lhe: - vais bater-me por causa disto? Foi a gota de água que faltava. Espancou-me brutalmente em frente ao nosso filho de 10 anos deixando-me cheia de escoriações e com a boca a sangrar e um dente partido.

O meu filho chorava e ele também chorou. Chorou durante muito tempo e teve que ser tratado pelo médico enquanto eu procurei que ninguém soubesse e, por isso, tratei-me a mim própria.

Foi então que ele começou a ser medicado e acompanhado por um psiquiatra que identificou estas alternâncias de humor como sendo “bipolar”.
Porém eu nunca mais fui capaz de dormir com ele situação que se arrastou até culminar na separação.

Embora, da minha parte, a parte emocional tivesse morrido para sempre, consegui perdoar-lhe e ficámos amigos.

Cinco anos depois da separação ele casou com a psiquiatra com quem se estava na altura a tratar e penso que, presentemente, consegue ser feliz e ter uma vida mais ou menos equilibrada.

Já o meu filho nunca lhe perdoou.