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AS LUZES QUE NÃO SE APAGAM


Portugal vive de ilusões. É a sua cultura secular assente em aparências efémeras. É aquela competitividade anti cultura que faz com que se adquira, mesmo sem se poder, o carro igual ou melhor ao que o vizinho tem. É aquela ânsia de status que se sacia em comprar a play station ao filhote pressuroso mesmo quando não se lhe fornece uma alimentação rica e equilibrada, ou uma ida ao dentista quando necessária. É aquela inveja e apetência por roupas de marca e outros sinais de bem viver quando se está endividado.

É este empobrecimento contínuo que empobrece ainda mais a pobreza quando escasseia o rendimento do trabalho e quando a luta pela sobrevivência se transforma numa autêntica ciência de recursos.

Os portugueses vivem tristes não por isto mas também por isto. Quando os objectivos se centram na aquisição de bens supérfluos e estes vão sendo cada vez mais um desiderato inacessível, a vida perde o sentido e mergulha em frustração ainda que a situação por si permitisse viver sem apertos no essencial. Mas quem se sente realizado quando não entra na corrida e não sente no rosto o soprar do vento do hedonismo que o próprio sistema gera e alimenta para manter a corrente com os retornos sempre garantidos? Provavelmente só os de cultura acima, de formação de raiz e indiferença perante as futilidades, poderão estar imunes ao cantar da sereia.

País, País, estás onde que não te vejo? A inveja cega os valores e a razão como se já não bastassem os partidos políticos que, com uma desonestidade intelectual impressionante, incentivam à revolta independentemente da razão e frequentemente criticam situações que subscreveriam se fossem governantes.

Somos o produto dum processo civilizacional em que o poder arrasou os laços e os afectos transformando-os em mercadoria rentável em mercados financeiros cada vez mais vorazes.

Em época de sacrifícios, de desemprego e de retracção do consumo, acendem-se as luzes nos grandes centros onde o comércio agonizante joga os últimos cartuchos na quadra natalícia. Gastam-se em iluminações o que as autarquias não têm para fazer face ao mais elementar nomeadamente no que respeita ao apoio a famílias que, sob as luzes de esplendor, tiritam de frio e barriga vazia.

Fala-se do Natal como um produto de marketing e mostram-se os santos salvadores que, com uma áurea de bondade, tiram dos seus sacos atestados as esmolas parcas e efémeras, tão efémeras quanto a quadra que as determina.

O ano 2009 trará certamente mais desemprego e menos esperança. E, de cada vez mais escassos os recursos, as luzes vão-se apagando por dentro.

Só as luzes exteriores permanecerão ostensivamente acesas.




33 comentários:

Valsa Lenta disse...

Que saibamos fazer uma viagem ao nosso interior. Retirar todos os obstáculos, mascarados de bens imprescindíveis. Aprendamos a ser críticos do nosso Eu.

Felicidades

Mário Relvas disse...

Escrevi um texto no dia 28NOV que terminava assim:

"O Natal está à porta. Falta menos de um mês para a festividade e as cidades de todo o país já se iluminaram. Se a cidade do Porto já se encontrava iluminada há algum tempo, Braga deu à luz na noite do dia 26. Uma iluminação sóbria e bonita. Esperemos que o Natal chegue aos corações dos que vivem nas ruas, com este frio, e se "aquecem" nas luzes..."

Saibamos fazer uma introspecção e tentar compreender porque nos deixamos manobrar e guiar como os carneirinhos através do consumismo, quebrando valores como o orgulho de ser português e de consumir o que é nosso e tem qualidade. Foi na ânsia dos subsídios a torto e direito, mal aproveitados, que nasceu o fogo do novo-riquismo parolo e sem futuro. Nasceu o endividamento das empresas, sobretudo das famílias, que resulta na globalização do desemprego, catapultando para índices maiores os países que pouco ou nada produzem.

Saudações e um sorriso de esperança natalícia

Zé Povinho disse...

O que mais me preocupa é que 2009 ainda vai ser pior do que 2008, e não sou só eu que o digo. O desemprego, a miséria envergonhada e os excluídos, ficarão ainda mais desprotegidos porque as ajudas vão para os grandes negócios, a grande indústria e outros grandes, ficando apenas umas migalhas para a costumeira caridadezinha. As luzes podem brilhar nas ruas e nas montras, mas haverão muitos para quem, nem ao fundo dum grande túnel brilhe alguma luz.
Abraço do Zé

Compadre Alentejano disse...

Nunca tinha assistido a uma época de Natal tão pobre. Os Centros Comerciais a abarrotar, mas só para passeio, as lojas tradicionais, às moscas...e nós, com os bolsos mais que vazios...
É o país cor de rosa de Sócrates.
Para o ano, vamos renovar-lhe o nosso voto...
Um abraço
Compadre Alentejano

Meg disse...

Lídia,
Está a ser cada vez mais difícil suportar este negócio que é o Natal. Sim, negócio, em que vejo pessoas desesperadas por causa das prendas, não sabendo onde arranjar maneira de alinhar no espectáculo do costume. Arejam-se os últimos cartões de crédito com o credo na boca, vive-se uma falsa alegria que esconde o desejo de ver o natal bem longe.
É evidente que estou a falar do natal dos adultos, do natal social, não o das crianças, o verdadeiro. Aquelas que ainda o vivem com a inocência que nos comove... mas já são tão poucas!!!

E também eu, este ano, tal como no ano anterior não tive vontade de dar uso aos vulgares ornamentos de natal em casa. Não sei como me vão catalogar, mas o certo é que não me apetece, não me dá alegria, e como não tenho crianças em casa, nem vestígios do "tal natal".
Para mim o natal é muito mais que uma data de festas. E destas eu não gosto.

Um abraço amigo

Pata Negra disse...

Este é o nosso templo onde todos os que se enxergam querem ser vendilhões. Este Natal brilha a decadência. Ao menos que Jesus que viesse de novo à Terra! Provavelmente anda aí mas já ninguém lhe liga. Silêncio, este Natal vou por o meu presépio à venda!
Um abraço e obrigado por me dares a honra de te o dar

marreta disse...

É-me difícil fazer qualquer comentário adicional, pois corroboro a 100% todo o post. Portanto a única coisa que posso fazer é assinar por baixo e esperar que futuramente se possa fomentar uma mudança radical de mentalidades que permita alterar esta sociedade "fantoche" em que vivemos. Certamente não será já em 2009, nem em 2010 ou 2020, mas tenho esperança que um dia será possível.

Saudações do Marreta.

António de Almeida disse...

-Que dizer? Vivemos uma crise de valores, não apenas em Portugal mas um pouco por todo o mundo. Muitos apontam como culpados a globalização e o capitalismo, eu que acredito na importância do indivíduo face ao estado e mesmo à sociedade, tenho dificuldade em aceitar algumas práticas recentes, mas também toda uma crise dos valores Humanistas. Não estou de forma alguma surpreendido pelos acontecimentos, antes pelo contrário, há muito que os antecipei e preparei-me para os enfrentar, mas reconheço que à minha volta vejo muita irresponsabilidade, e temo que o pior ainda esteja para vir.

Peter disse...

"Somos o produto dum processo civilizacional em que o poder arrasou os laços e os afectos transformando-os em mercadoria rentável em mercados financeiros cada vez mais vorazes."

Infelizmente... estou a lembrar-me duma mãe, num divórcio litigioso, que trocou por dinheiro, tempo de estar com os filhos pequenos.

"O ano 2009 trará certamente mais desemprego e menos esperança. E, de cada vez mais escassos os recursos, as luzes vão-se apagando por dentro."

Não tenhas a menor dúvida. A esperança há muito morreu nos nossos corações.

"Só as luzes exteriores permanecerão ostensivamente acesas."

Há que manter as aparências, vivendo de mentiras e muito acima das nossas possibilidades.

Liz disse...

Como dizia a minha avó "ainda pior que a pobreza material é a pobreza espiritual". Vivemos numa sociedade que "cedeu" ao consumismo e onde vale tudo para manter este negócio em que se tornou o natal.

Jorge P.G disse...

Lídia:

Cumprimento-te por este artigo que eu próprio assinaria sem qualquer reserva.
Fazes um retrato realista e desapaixonado da sociedade capitalista actual.


Só num pequeno detalhe iria mais longe; é que o fenómeno não é exclusivo português. Nota-se mais em Portugal porque é cá que vivemos e porque este pequeno país tem vivido desde há algumas dezenas de anos num nível superior às suas posses e recursos.
O povo aqui deste cantinho da Europa sempre olhou para "os estrageiros" como símbolos dos apetecíveis e invejados bem materiais que não era habitual existirem cá. Depois, alguns governantes irresponsáveis vieram dizer que éramos iguais aos outros. MENTIRA!
Mas este povo, que vivera amedrontado e mantido na ignorância, convenceu-se que sim.
Nada se produz em Portugal, praticamente, além de serviços.
Indústria? Onde está?
Agricultura? Onde está?
Pesca? Onde está?
Exploração do sub-solo e de energias alternativas? Onde estão?
Turismo? Onde está e de que qualidade é?
Investimento público que crie mais emprego? Onde está?
Investimento sério na educação e na cultura? Onde estão?
Políticos credíveis e responsávbeis? Onde estão? Quem são?
Sacrifícios pessoais abdicando de férias no estrangeiro que levam anos a pagar para logo se contraírem novas dívidas? Onde estão?
Deixar carros e andar nos transportes? Quem o faz?
Transportes abundantes e de qualidade? Onde estão?
Grandes exemplos das cúpulas governamentais? Onde estão?
Discursos sérios e em que o povo acredite? Onde estão?...

Por isto, Lídia, e por muito mais, é que estamos onde estamos, ultrapassados por quase todos nesta Europa que dizem querer de fato único mas em que uns vestem Armani e outros só podem comprar na rua. Portugal continua de tamancos mas dele os seus dirigentes pretendem fazer crer que passeia em cima de saltos altos.

Um abraço para ti e as minhas desculpas pelo alongar do comentário mas, como não sou grande visitador, olha... às vezes excedo o razoável.

Jorge P.G.

www.arteautismo.com disse...

Olá Lídia,
Seus textos sempre são bem escritos
E tocantes. Mas este de hoje foi o melhor de todo o ano.
Revela a hipocrisia atrás do símbolo de um natal.
As pessoas só lembram de Jesus como um bebê e como um homem morto.
Gastam e fazem as festanças e nunca se lembram de quem tanto precisa. Isso sem falar que é um comercio.
Por isso amei teu artigo.
Chega de sermos enganados por esta sociedade capitalista e consumista.
Beijos com muitas saudades!
Ray

SILÊNCIO CULPADO disse...

Valsa Lenta

Se todos se preocupassem em ser críticos de si próprios antes de serem críticos dos outros, muitos males da nossa sociedade fcariam sanados.
Mas infelizmente o jogo do faz-de-conta alienou a nossa identidade.


Abraço

São disse...

É a falta de educação de um povo subordinado ao obscurantismo durante séculos, mas com tiques de novo-rico!!
Bem hajas, Lídia.

FERNANDA & ASTROLOGIA disse...

Olá querida Lídia, linda a tua postagem, para pensar e repensar...
Lídia escrevi um texto sobre a EDUCAÇÃO está no blogue novo, este que estou a postar... Amigo gostaria muito que o lesses pode ser ?
Obrigada e muitos beijinhos de carinho e ternura,
Fernandinha

SILÊNCIO CULPADO disse...

Mário Relvas
É como dizes e a crise do subprime vai deixar as economias dos países desenvolvidos em situação crítica ainda por mais uns anos.
Mas as crises também têm, ou poderão ter, os seus aspectos positivos na medida em que obrigam a reclassificações profundas e ao estabelecimento duma nova ordem para se conseguir sair delas.

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Zé Povinho

O cenário não é famoso tendo em conta que o País tem já mais de meio milhão de desempregados e um milhão e quinhentos e sessenta mil pensionistas com menos de 330 euros mensais. Destes últimos apenas cento e sessenta mil recebem o tão propalado complemento solidário para idosos.
E isto para não falar dos que têm trabalhos precários e vencimentos que mal dão para sobreviver.
Piorar numa situação destas é algo que terá certamente contornos muito dramáticos.

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Compadre Alentejano

O Natal, em meu entender, deverá ser uma quadra de tradição e de festas de família. Reencontros, amizades e solidariedades. Neste contexto a pobreza do consumismo não me assusta. O que me assusta é pensar que nem na época de maior consumo há já poder de compra.

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

MEG
É confrangedor esta "obrigação" de prendas, este delapidar de recursos que se têm e que não se têm em objectos muitas vezes supérfluos, numa febre louca, stressante e anti-vida.
Concordo contigo relativamente ao espírito de família e um Natal para crianças. Tenho 3 rapazes qual deles o mais louco pelo Natal: o meu filho que tem 30 anos, o meu neto de 2,5 anos e o meu adoptivo de 15 anos.
Por eles lá arranjei a árvore as luzes e as prendas procurando artigos úteis. Só para o mais pequeno é que arranjei uns carritos. É louco por carros.


Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra
Claro que ninguém liga ou ligaria a Jesus se ele viesse à Terra apregoar a partilha e o amor ao próximo. Algo que nada tem a ver com a caridade ostensiva nem com este espírito de decadência que mais parece a prostituta em fim de ciclo.

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Marreta

Vivemos realmente numa sociedade fantoche em que a decadência se irá acentuar nos próximos anos. Por vezes é necessário bater no fundo para que nos conscencializemos que é urgente e necessário encontrar uma nova ordem.


Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

António Almeida

Concordo que estamos a viver uma crise de valores, que não é exclusiva de Portugal, e admito também que o pior está ainda para vir.

Acredito nos valores individuais como património de Estados e Nações que se queiram desenvolver através da criatividade, da inovação e das capacidades exlusivas de cada um. Mas, como sabes, também aponto o dedo ao capitalismo selvagem que se sustenta alienando, corrompendo e espezinhando.
Os valores humanistas perdem-se quando tudo se materializa.

Abraço

Olhos de mel disse...

Nossa linda! Que post, heim? Diretamente no coração deles. A preocupação é saber se eles ainda o teem. Porque quando assumem o governo, parece que o tiram e jogam fora.
Essas luzes externas é a aparência que precisa ser mantida, embora ofusquem o brilho de inúmeras pessoas.
Beijos

JOY disse...

Olá Lidia,

Não consigo deixar actualmente de olhar para o natal como uma gigantesca campanha de marketing, e por isso não fosse o facto de ter duas lindas crianças, que ainda olham para o natal como aquele dia especial e de certeza que seria para mim um dia igual a tantos outros, não compreendo o desespero de consumo que se abate sobre as pessoas que gastam o que têm e o que não têm em nome de quê ? acredito sinceramente naquela máxima que diz: "que o natal é sempre que um homem quer"

Abraço forte
Joy

Maria Clarinda disse...

Dinivinal este teu post.
Gostei muito de o ler e parar e pensar em cada frase que aqui deixas-te.
Jinhos

SILÊNCIO CULPADO disse...

Peter
Esse caso que contas é de doer.
Que mundo é este que vive de aparências e do vil metal esquecendo os valores essenciais e o equilíbrio afectivo sem o qual o ser humano nada é?


Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

LIZ
O Natal é tão bonito quando se respeitam as tradições, se partilham os "fritos" e se aproveita para rever a família e os amigos distantes.
Também é bonito ver a alegria genuína das crianças quando procuram as prendas no sapatinho.
"O negócio Natal" é algo de obsceno que aliena e suja as nossas raízes.

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Jorge
Não peças desculpa por te teres alongado. O teu comentário é muito esclarecedor e didáctico e ajuda a reflectir o que é fundamental.
O mal não é só português, infelizmente. Porém o português deslumbrou-se com os piores exemplos e esqueceu-se que essas práticas, se são más onde são, neste País-cauda-da-Europa ainda são piores.
A crise veio para ficar, infelizmente e a situação tende a piorar.

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Ray
Que alegria ver-te e ler-te. Vou ter que fazer uma pequena viagem mas quando regressar vou escrever-te e falar-te duma ideia que tive.

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

São
Os tiques de novo rico com carteira de pobre são confrangedores.
É o obscurantismo e a moda que também foi importada doutros países tidos por padrão.

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Fernanda

Já li, gostei e comentei.


Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Olhos de Mel

Tu sabes, amiga, e infelizmente as situações repetem-se em diferentes países.
A mediocridade também se globalizou tal como o enriquecimento ilícito assente na corrupção e no compadrio.

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Maria Clarinda

Obrigada pela visita e pelo incentivo.


Abraço