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QUE CULTURA?


São várias as definições de cultura. Há mesmo quem a confunda com civilização. Há quem ache que um pescador não tem cultura e há quem a exija, de dedo em riste, a um licenciado.

Tal como todos os símbolos de consumo a cultura também não foge à regra do status que se pretende obter através dela.

Mas de que cultura estamos realmente a falar? Da cultura cultivada própria dos académicos? Dessa cultura de elites que impõe padrões às escolas e modas na escolha dos vocábulos e das expressões?

Ou falamos duma outra cultura, mais abrangente, onde cabem todos os saberes e manifestações de arte e sensibilidade humanas? Uma cultura que se bebe em várias fontes mesmo naquelas que são quase iletradas?

Efectivamente só este conceito de cultura tem cabimento. Porque nós aprendemos com todos nós. Os menos letrados podem ser exímios em várias expressões de arte e exibem, por vezes, saberes espectaculares advindos da experiência e da observação.

Aos académicos não podemos exigir uma cultura abrangente. Quando muito uma maior propensão para se cultivarem através dos meios didácticos que fazem parte da sua vivência e formação.

Aos académicos o que devemos exigir é que sejam conhecedores profundos da sua área de formação e que nela invistam em aprendizagem e investigação permanentes. Porque o País necessita de know how específico em diferentes matérias para que se desenvolva e ganhe as batalhas da inovação e da competitividade. E com elas um maior bem-estar para as populações pelas descobertas que vão sendo proporcionadas.

A cultura é de todos e a todos pertence. É daqueles que observam e se motivam na experiência, na criatividade e nas suas manifestações sensíveis. Não podemos pois escaloná-la.

Tenho aprendido imenso com pescadores, pessoas do campo e pessoas da rua. Sou uma apaixonada pela sabedoria popular e pelas suas manifestações mais profundas. É uma sabedoria menos viciada mesmo que peque por vezes por falta de suporte científico. Por isso digo: cada macaco no seu galho.

Aos académicos o que é de sua vocação, ao povo em geral o que é do seu saber. Pena que a escola como instituição do poder esteja tão ligada ao saber das elites esquecendo a seiva que corre nas plantas dos nossos campos e que só quem as plantou a pode reconhecer.

Uma seiva sem a qual não há vida e que não se compadece da subjugação do homem pelo homem nem da ausência de Amor em que esta estratificação absurda faz minar as raízes mais profundas dos laços sociais.

Lídia Soares

18 comentários:

Eduarda disse...

Lídia,

ficaria aqui a noite toda a divagar sobre a cultura.

a mesma é um entrelaçado de séculos, de saberes, vindos de qualquer camada social.

aprender será a única maneira de não haver macacos nos galhos, mas de nos unirmos e preservar a nossa identidade.

bj

SILÊNCIO CULPADO disse...

Eduarda

Concordo que sim, que nos devemos unir e preservar a nossa identidade.
Quando falo "cada macaco no seu galho" longe de mim pôr separações entre as pessoas.
Porém, mais do que abordar a cultura em si, que daria para estarmos a noite inteira e não chegaria,quis abordar a dictomia saber popular versus saber erudito.
É frequente o ataque dos populares aos doutores que, segundo eles, não sabem nada nem são precisos e destes em relação ao homem comum como se este fosse destituído de cultura.
O que pretendo transmitir é que exactamente cada um deles tem os seus saberes próprios e que todos os saberes se complementam. Todavia ninguém pode ter pretensões a saber tudo. Há áreas que se aprofundam. E aí cada macaco no seu agalho. O saber é de quem o possui.

Abraço

São disse...

Cultura, educação, instrução, civilização, socialização.

...e tanta confusão.

Um abraço, minha amiga.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Verdade, Querida São.

Um abraço apertado

Zé do Cão disse...

Na via hierárquica dos galhos estava desgraçado, até as lagartixas me deitavam a mão.

Um camaleão num galho tem uma vantagem extraordinária, com aquela sua longa língua certeira e mexendo-se devagar come que se farta.
Faz-me lembrar a cantiga do Zeca Afonso
"Eles comem tudo"
Será que vem a propósito nas tempos actuais ou está sempre actualizado.

Querida amiga,o meu abraço e foi um prazer conhecer-te.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Olá Zé

Podes crer que o prazer foi também meu.
A tua força d eviver é contagiante. Lagartixa? Jamais! Talvez um Homem Aranha.

Abraço

Compadre Alentejano disse...

Por vezes, há mais cultura entre iletrados e semi-analfabetos, que entre académicos...
Abraço
Compadre Alentejano

José María Souza Costa disse...

Interessante
Eu tenho um blogue, estou lhe convidando a visitar e se possivel seguirmos juntos por eles. Estarei grato esperando voce lá
Abraços de verdade

Pata Negra disse...

Um bom texto para uma primeira lição sobre cultura.
Um abraço cultivado

Cata- Vento disse...

Subscrevo por inteiro o que dizes neste texto. O saber de experiência feito, transmitido de geração em geração, é, indefectivelmente, muito importante. E tão poucos pensam como tu, como nós! Eu, que vivo entre o mar e a serra, constato diariamente que assim é e tão menosprezado tem sido por muitos intelectuais que tão pouco revelam saber daquilo em que lhes compete ser exímios.
Luta-se por uma escola inclusa mas tarda em sê-lo porque os intrumentos dos filhos de uns e outros são muito diferentes.

Bem-hajas!

Beijinhos

SILÊNCIO CULPADO disse...

Compadre Alentejano

Todas as pessoas são cultas independentemente de terem ou não cursos académicos. A arte popular e as suas imensas manifestações atestam isso mesmo.Quanto à educação tanto encontramos pessoas educadas instruídas como analfabetas.
Conheci pessoas que me ensinaram imenso e que eram muito pouco letradas.
Se as pessoas saíssem de si próprias e deixassem de se mover apenas em círculos fechados que têm a ver com as suas profissões e estilos de vida, encontrariam uma diversidade extremamente enriquecedora do ponto de vista humano. E perceberiam que os Amigos, aqueles Amigos verdadeiros, não se encontram na partilha dos espaços de interesses comuns, mas onde acontece a empatia que leva a uma maior afectividade.

SILÊNCIO CULPADO disse...

José Maria Souza Costa

Obrigada pela visita. Este blogue é gerido colectivamente. Visitaremos todos os Amigos sempre que possível.
Em breve farei uma visita ao seu cantinho.

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra

Realmente é apena suma introdução. Importa questionar. Impora falar. As consciências andam adormecidas neste mundo em competição e em convulsão.
É preciso abanar.A revolução cultural tem que acontecer para que sejamos inteiros.

Abraço cultivado

SILÊNCIO CULPADO disse...

Cata-Vento

Minha Querida Isa
Nós sabemos do que falamos. Nós não queremos clivagens entre as pessoas.
As pessoas do campo também escrevem poemas. Também produzem obras de arte. Também têm conhecimentos profundos vindos da observação e da experiência.
A dignidade não se compra nem se vende. É algo que pertence a cada ser humano e pela qual temos que lutar cada vez que surjam déficits em virtude das injustiças sociais.
A cultura, tal como a educação, não tem a ver com a instrução. Ao académico exige-se que tenha know how específico sobre a área da sua formação e que aprofunde esse knw how necessário a que um País se desenvolva através da inovação.
Claro que também tem obrigação, como qualquer outra pessoa, de pugnar por ser educado e culto. Porque todas as pessoas têm igual valor, igual mérito e iguais direitos como seres humanos.
Abraço

C Valente disse...

Já passou e a tristeza continuou
Saudações amigas

C Valente disse...

Já passou e a tristeza continuou
Saudações amigas

C Valente disse...

Já passou e a tristeza continuou
Saudações amigas

SILÊNCIO CULPADO disse...

C.Valente

Obrigada. Ainda bem que atristeza passou.

Abraço