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Sou Povo




Entre silêncios e gritos conformam-se uns revoltam-se outros. Ninguém se entende em casa onde a escassez de pão gera a falta de razão em discussão sem sentido. Espiga vazia de seara não semeada da qual esperamos fartos grãos. Letárgico, resignado e sofredor somos povo aceitador da sina da vida. Destino esculpido em pedras graníticas que são lei imutável porque queremos que o seja. Mudança desejada e esperada. País de fábulas e contos de princesas onde ao toque de varinha mágica tudo se transforma. Ilusão de crianças em adultos que o não são.

De que vale a liberdade quando se torna palavra sem sentido por não sabermos o que é. De que valem leme, vela e remos se nunca aprendermos a manejar embarcação à deriva em alto mar?
Religiosa e resignadamente aceitamos a esperança de que o paraíso prometido se nos apresente um dia, com a mesma convicção sebastianista a de que o salvador do povo finalmente surja em manhã de nevoeiro.
Falta-nos o saber de que somos vara de poder em fina haste de árvore, mas que unidos seremos fortes. Falta-nos matar a partidocracia e unirmo-nos aos movimentos de cidadania, que se vão tornando mais fortes face à revolta.
Espanta-me toda a energia despendida em encontrar culpados na saga em que alguns eleitores não puderam votar e que essa energia despendida não seja aplicada numa reflexão - resposta ao elevado número de abstencionistas.
Creio que todos sabemos a razão ser o descrédito da classe política. Os políticos também o sabem, mas não estão preocupados. Sabem que têm um eleitorado passivo, que se delicia com palavras doces de mudança, tão iguais às proferidas em eleições anteriores e que não operaram mudança alguma.
Seguro a vela erguida, seguindo sem rumo ao sabor do vento. Outros pegarão no leme e traçarão o rumo. A pouco e pouco cada um pegará no seu remo e remará. O barco move-se em mar chão por vezes e outras em mar de vagas, mas move-se.
Não sinto pena e muito menos asco, de um povo em que sou haste. Viajo na esperança da reacção para que a mudança possa acontecer. Grito para quebrar o silêncio da revolta sem medo ,para que outros oiçam e possam gritar também.
Não espero o rei salvador da pátria em manhã de nevoeiro, como solução para um povo.
Agir é preciso. Se for com alma e baseado na essência de um “acreditar”, tanto melhor.
R.A.

9 comentários:

Raul Almeida disse...

Entre um poeta e a politica há a distância entre o sonho e a realidade.
Atenua-se o frio gélido ardendo os últimos cavacos em fogueira que se extingue.
Um moribundo país precisa de curar-se.
Teimamos em cuidados paliativos para atenuar a dor.
Quando a auto estima e orgulho de ser nação morre, morremos com eles.
Surgem profetas da desgraça quando a desgraça somos nós. Porquê?

Sonhadora disse...

Um texto muito verdadeiro...um lamento...uma oração por este povo que está a morrer e não sabe.

Grito para quebrar o silêncio da revolta sem medo ,para que outros oiçam e possam gritar também.

Haja alguém que grite...e gostei muito deste grito...vou voltar para saborear mais gritos destes.

Beijo
Sonhadora

São disse...

Se não sente pena, ainda bem. Asco, também prefiro não sentir.

Mas , defeito meu, não tenho consideração por pessoas que se vergam sob o jugo sem sequer tentarem reagir.

Saudações.

Raul Almeida disse...

Sonhadora
Os silêncios são para ser quebrados.
O pensamento de revolta só será ouvido quando todos em uníssono o gritarmos, brandido espadas em forma de voto para que a batalha possa ser vencida.
Grato por gostar.
Beijo.

Raul Almeida disse...

Cara São
Como posso sentir pena de mim mesmo, quando afinal também sou povo?
Sinto tristeza profunda pela passividade de um eleitorado inculto que não compreende a democracia e o poder do voto para que a mudança aconteça. Sinto tristeza pelo actual estado da nação em que o poder é forte com os fracos e fraco com os fortes, poder este que vê como causa de todos os males a garantia dos direitos sociais básicos garantidos pela constituição e pela declaração dos direitos do homem da qual Portugal é signatário.
Ter pena ou qualquer outro sentimento menos nobre, é perpetuarmos o actual estado de coisas, num todo ao qual pertencemos e que por consequência também nos torna vitimas. É preciso agir e uma das formas de o fazer é despertar consciências para que a passividade de alguns (muitos)seja suprimida e se transforme em mais um grito de revolta.
É necessária uma reflexão profunda em cada um de nós, onde a pergunta e a resposta daquilo que já fizemos para mudar o actual estado de coisas seja a nota sonante.
Se não matarmos a partidocracia e não nos envolvermos nos movimentos de cidadania nunca seremos verdadeiramente livres e senhores do destino de um povo do qual fazemos parte.
Seremos uma espécie de adeptos de um clube de futebol, que saímos às ruas com bandeirinhas em eufóricas manifestações de regozijo quando o partido ganhador do qual somos adeptos, saiu vitorioso nas eleições.
O defeito de não gostar dos que se vergam sem tentar reagir, não é defeito. Defeito será não tentarmos com todas as nossas forças despertá-los para que possam agir afim de que a nossa luta tenha mais e mais povo a combater.
Gostei do seu grito de revolta que é também o meu. O resto é uma pluralidade no pensar e na forma de agir, em que pela minha parte o lamento é substituído pela acção para que a nação desperte.
Posso ser apenas uma gota de água, mas não esqueço que o oceano é constituído por gotas de água.
Saudações cordiais

São disse...

Meu caro, se me equivoco peço desculpa.

Mas parece-me entender que parte do princípio que eu pertenço a algum partido. Não, de facto, sou apartidária. Embora seja de Esquerda, como sempre fui e serei.

Sou demasiado livre para me poder encaixar em pensmentos pré-formados tanto em religião como em política. E , no entanto, creio em Algo que nos transcende por completo.

Foi por acreditar na força da cidadania não enfeudada a Partidos (que são a essência da Democracia, não esqueçamos...e de ditadura já tive mais do que o suficiente)que votei Fenando NObre, principalmente pela admiração e respeito que tenho pelo seu estupendo trabalho através da AMI(da qual sou participante).

Tenho cumprido o melhor que sei e posso o meu dever de participação.

Por isso, acho - talvez erradamente - que me posso irritar cim esta característica de apatia nossa.

Bom fim de semana.

manuel marques disse...

Paciência dos pobres, quem te conseguirá esgotar algum dia?

Beijo e bom fim de semana minha querida.

Raul Almeida disse...

Eu notei o apartidarismo e uma certa preocupação com as causas sociais. Notei também a noção e a preocupação de que certo partido acolitado por outro venha a ser maioria e consequentemente poder, à semelhança do que aconteceu no passado.
Afinal somos iguais em pensares acreditando no movimento da cidadania independente e votando na mudança. O sinal veio com FN.
Não é erro irritar-nos com a apatia à nossa volta. Erro será quedarmo-nos e nada fazer para despertar as mentes para a luta.
Utopia ou não, o sonho da mudança não nos retira o direito a um legitimo desabafo onde a palavra irritação e outras, têm o seu cabimento.
Bom fim de semana e grato por esta troca de pensares e de sentires.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Raul
Bonito texto. Eu gosto. Este País é a minha casa.Com pena é certo que não seja diferente. Que não acorde. Ou será que acordou e que por isso está descrente?
Estamos a anos-luz dos ideiais de Abril. Foram anos de pisadelas e de recalcamentos.
Claro que sim, que há que despertar. E creio que se despertou. Cavaco Silva foi eleito com 23% dos votos se contarmos com os brancos e os nulos.
Há várias formas de dizer não. Muitas pessoas entenderam dizer não de outra forma.
Mas um dia eu sei, não se calarão. Mas não será em voz de cordeiros e na abstenção.
Abraço