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NÃO SABEM O QUE É VIDA


Era o último dia de Agosto de há dez anos atrás. Fui acordada pelo Hotel pouco passava da meia noite para um voo de regresso que, supostamente, deveria sair às sete da manhã.

Só quando chego ao aeroporto do Sal me apercebo da temeridade de fazer o meu regresso neste dia. É que sendo o último dia de Agosto todos os cabo verdianos que vieram de férias à terra natal, regressavam neste voo da TACV, superesgotado de pessoas e de bens. No minúsculo aeroporto, onde mal cabiam os passageiros, amontoava-se de tudo um pouco num calor sufocante de pessoas e cheiros.

Despacho as malas e sento-me no chão aguardando o anúncio da partida. Mas o tempo passa e a hora de partida, constantemente adiada, estava agora nas 14 horas. Foi o que deu o prolongamento das férias e o meu fascínio por São Vicente. Agora era esperar sem pensar no tempo.

O meu olhar recai sobre uma cabo-verdiana mais velha que eu e bastante mais alta, vestida de azul.

Dirijo-me a ela e pergunto-lhe se vai no voo para Lisboa. Era um pretexto para entabular conversa.

Ela sorriu-me contente por esta companhia inesperada. Então confidencia-me a sua ansiedade por chegar a Lisboa e ver um filho que não via há 20 anos.

-Tinha 10 anos quando o entreguei a uma irmã minha para o criar. Não tinha como lhe dar de comer. Também não tinha dinheiro para o visitar. O dinheiro que juntava era para lhe mandar. Mas era pouco. E mais eu não tinha.

Não chora mas a voz chora por ela. Treme, fica rouca, mas os olhos estão secos. Secos como a paisagem e a falta de recursos.

Quer saber o que penso. Mas eu não sei pensar. Imagino apenas e fico triste. Adelina quer saber se acho que o filho a vai a reconhecer e se ainda será capaz de a olhar como mãe.

Eu falo. Preencho os silêncios mas nada digo. Como posso fazê-lo? Adelina olha para os turistas que, como eu, vêm de regresso e diz-me sem rancor:

- Não sabem o que é vida.

É uma frase que me entra na alma e me entristece. Uma frase que me fica a martelar até o avião aterrar na Portela.

Vejo a Adelina segurar as malas e dirigir-se à saída. Vejo um homem alto com um cartaz com o nome de Adelina. Vejo as lágrimas da Adelina soltarem-se finalmente. O homem olha para ela e continua a segurar o cartaz até que, finalmente, ficam a um passo, frente-a-frente. Mas não se abraçam. Vinte anos é realmente muito tempo.

Olho em volta as pessoas que vêem sem ver estes mundos diferentes e logo me ocorrem as palavras de Adelina:
- Não sabem o que é vida.

Lídia Soares

13 comentários:

O Guardião disse...

Há vidas que são mais duras do que outras e nunca devemos ser tentados a julgar alguém sem conhecer bem a pessoa e tudo que a possa ter condicionado nas suas acções.
Bfds
Cumps

Pata Negra disse...

Todas as vidas são boas, pior são as sobrevidas, dos que sobrevivem, dos tais...
Um abraço com vida

manuel marques disse...

O tempo não se ocupa em realizar as nossas esperanças: faz o seu trabalho e voa ...

Beijo.

São disse...

A vida pode ser realmente muito dura.
Ainda bem que existem pessoas a desconhecer essa dureza. Pena é que nem sequer façam um esforço de emparia com quem só lhe conheceu essa faceya.

Beijos, linda.

São disse...

ERRATA:

EMPATIA (não "emparia")

FACETA (não "faceya")

SILÊNCIO CULPADO disse...

Guardião

Quando escrevi este texto não pretendi fazer qualquer juízo de valor sobre Adelina.
Quis mostrar uma história que me tocou pela aspereza das condições de vida.
Neste Mundo global de grandes desigualdades, muitos vivem insatisfeitos em situações de autêntico privilégio.
Não sabem o que é vida no sentido em que não sofreram as suas carências extremas. E também não sabem o que é vida porque preferem não ver as realidades que os incomodam.
Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra

Em poucas palavras disseste todo o meu pensamento.
O problema não está na vida que, se é vida, é porque reune condições para o ser.
O problema está nas sobrevidas resultado das injustiças sociais na distribuição da riqueza.
Abraço também com vida

SILÊNCIO CULPADO disse...

Manuel Marques
Realmente não podemos dominar o tempo mas podemos do tempo fazer rendimento útil e justo para que ninguém tenha que sobreviver ou morrer por não ter que comer.

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

São Querida

É isso, esse esforço que dê a todos o mínimo necessário para terem vida que tem que ser feito.
É que 25% da população mundial consome 75% dos recursos.
Abraço minha querida

Maria João disse...

Lídia

Já li várias vezes este teu extraordinário texto e sempre que acabo de o fazer, recordo inúmeros testemunhos de outras tantas vidas que, tal como a de Adelina, estão cheias de reversos, suor e lágrimas à espera de um raio de sol, apenas.
E neste tanto que fica preso na minha garganta por dizer, vergo-me à força, à perseverança e à resiliência de todas essas vidas que me servem de exemplo e referência, nas minhas pequenas lutas diárias.

Obrigada pelo teu olhar profundo sobre gente e coisas...
Obrigada por partilhares...

Um beijinho, minha amiga

SILÊNCIO CULPADO disse...

Maria João
Sei que te confrontas com muitas situações como a que descrevo.
Porém sempre me rendo e me interrogo quando encontro pessoas como a Adelina. A resiliência é possível em pessoas cuja situação de aspereza de vida lhes retirou a fraqueza que leva à depressão e à baixa auto- estima.
Aqui a lógica é outra. A dor tem outro nome. Suplanta-as.Mas é possível segurá-la.
Perante isso sente-se que os "outros sofredores" realmente "não sabem o que é vida".

Abraço

docerachel disse...

Linda e triste história de vidas separadas. Pena isso ainda se dar num mundo tão cheio de poderes e recursos...e injustiças.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Docerachel
Este mundo cheio de injustiças sociais produz cada vez mais dolorosas diferenças.
Como se a vida fosse apenas privilégio de alguns.
Abraço