O reconhecimento da homossexualidade conferindo-lhe iguais direitos perante a lei, nomeadamente no que respeita ao casamento e adopção por parte de casais de lésbicas e de gays, é um tema ainda fracturante nas nossas sociedades muito marcadas pelos dogmas religiosos e pelos atavismos a um passado onde certas manifestações emocionais do ser eram assunto tabu.
Antes de entrar propriamente no tema, que se pretende analisar à luz de diferentes opiniões e correntes de pensamento, fica, a título de introdução, esta passagem de "O Advogado do Diabo" de Morris West.
Trata-se do extracto de um diálogo entre um pintor homossexual e Meredith, o padre a quem foi confiada uma missão especial nos últimos 6 meses que teria de vida.
Dizia o pintor para o padre:
- Conheço toda a vossa argumentação acerca da questão do uso e abuso do corpo. Deus criou-o, primeiro, para a procriação dos filhos e, depois, para o comércio de amor entre homem e mulher. É o fim. Todos os actos do nosso corpo devem conformar-se a esse fim e tudo o mais é um pecado. O pecado segundo a Natureza é um acto de excesso do instinto natural... como dormir com uma rapariga antes de casar com ela ou desejar a mulher do próximo. Desejar um rapaz é da mesma maneira um pecado contra a Natureza... - Sorriu sardonicamente para o rosto pálido e atento do padre. - Estou a surpreendê-lo, Meredith? Também eu tive a cabeça cheia de S.Tomás de Aquino. Mas há aí um logro e a isso é que quero que me responda. E a minha natureza? Nasci assim. Era gémeo. Se tivesse visto o meu irmão antes da morte, teria visto o macho perfeito, o macho excessivo, se quiser. Quanto a mim...O que eu devia ser não estava perfeitamente claro. Mas compreendi-o bastante cedo. Estava na minha natureza ser mais atraído pelos homens do que pelas mulheres. Não fui seduzido num banho público ou tentado por dinheiro num "bar". Fui feito assim. Não posso mudar. Não pedi para nascer. Não pedi para nascer tal como sou, e Deus sabe o que tenho sofrido por causa disso. Mas quem me fez? Segundo o senhor, foi Deus! O que desejo e o que faço estão de acordo com a natureza que Ele me deu....
(...)
- ... E o senhor olhe também para si! É um padre. Sabe muitissímo bem que, se eu tivesse tentado seduzir uma rapariga em vez de Paolo, teria uma opinião completamente diferente. Ter-me-ia desaprovado, claro! Ter-me-ia feito um discurso sobre o sexo e tudo o mais. Mas não teria ficado muito descontente. Eu teria sido normal... conforme a Natureza! Mas não fui feito assim. Terei por isso necessidade de menos amor? De menos satisfação? Terei menos direito de viver no contentamento porque, em qualquer sítio no curso da sua criação, o Todo-Poderoso teve uma escorregadela?... Qual é a sua resposta para isto, Meredith? Qual é a sua resposta para mim? (...) Sinto-me solitário! Preciso de amor, como toda a gente! O meu género de amor! (...)
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