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RENASCER DA CRISE


A crise veio para ficar, dizem os analistas, os economistas e a realidade que os países industrializados mostram nos indicadores pessimistas que diariamente nos são apresentados.

A crise veio para ficar e adensa as dificuldades dos mais pobres e, por isso mesmo, mais indefesos perante os ventos da recessão que não abrandam perante medidas de última hora frágeis e inconsistentes.

A contestação social que varre a Grécia não é coisa de somenos importância só porque não lhe é dada a devida projecção na esperança vã de que desvalorizando poderá ser possível condicionar os factos.

É ver pois um jogo, quase ingénuo, em que mergulham tantas cabeças pensantes que outrora diziam e previam mas que hoje pouco sabem sobre o que lhes acontece.

A incerteza é pois a única certeza do momento presente.

Enquanto isso, numa antevisão do que nos trará 2009, o comércio agoniza sob as luzes de Natal que teimam em brilhar esplendorosas como se o seu brilho pudesse ofuscar a pobreza que cresce e se envergonha perante a abundância a que não acede.

Lentamente o tecido social mais fragilizado vai tomando consciência que a massificação do consumo trouxe custos desiguais e que o dinheiro é mais caro para quem menos tem. Também as consequências se distribuem desigualmente pesando sempre mais sobre quem menos defesas possui.

Todavia talvez nem tudo seja tão negativo. Perdidos os afectos solidários que levam à partilha, à entreajuda e a todas essas dádivas de grandeza de que só os pobres são capazes, talvez se tenha chegado a uma encruzilhada que obriga a uma paragem obrigatória de imperiosas reclassificações.

E nessa paragem talvez se perca muito do individualismo que animou este caminho agreste sedento de consumo e competitividades destronadas.

E na dor do embuste onde caíram os mais incautos, talvez os mesmos revejam as vezes que não olharam para trás, que não deram a mão a quem pedia porque uma luz mais forte os chamava acenando projectos de vaidade e de glória em troca duma alma que se foi fechando para sentir os sonhos alheios.

Porque o individualismo exacerbado secou as nossas raízes e assim foi possível esquecer a terra donde viemos, o berço que nos embalou, os amigos que nos viram crescer, as figuras de referência do que foram as comunidades que nos formaram.

Apenas o “ter” nos guiou no mundo das aparências onde pisámos e fomos pisados, onde apagámos socialmente os vestígios das emoções espontâneas.

E fomos solitários por mais pessoas que nos rodeiem e nos acompanhem. E fomos infelizes e amargos por mais êxitos neste mundo de facilidades obscenas. E fomos desamados por quem nos puxa os cabelos para nos ultrapassar ou para se segurar. E fomos secando afectos perante as desconfianças fruto de más experiências.

Aumentam os suicídios, a toxicodependência, os consumidores de anti-depressivos. Aumentam os idosos abandonados.

Talvez a crise traga o abanão que nos falta para reflectirmos e retrocedermos. Porque perante catástrofes as sociedades se tornam mais coesas.


25 comentários:

Sophiamar disse...

Um post para ler, reler e pensar como são os teus posts.
Vivemos tempos difíceis, eu não quero ser profeta da desgraça, mas penso que outros muito piores soam por aí.
Um Santo e Feliz Natal, amiga algarvia.

Beijinhos

Entre "aspas" disse...

Um post a ter em linha de conta com os temos difíceis que atravessámos, as linhas opositoras continuam a crescer numa luta desenfreada,criando pólos completamente opostos na sociedade.
Um Santo e Feliz Natal
Bjs Zita

O Árabe disse...

Que assim seja, amiga... precisamos manter a esperança! Deixa-me desejar-te, apesar da crise, um Feliz Natal e um Ano Novo de muitos sucessos!

sideny disse...

lidia
EU acho que a crise vai continuar
e para o ano acho ate que sera pior.
não para os ricos ,mas os pobres vao passar mal.
beijinhos

Olhos de mel disse...

Oie linda! Infelizmente o post está certo e diz tudo. Gostaria muito de ver algum engano, mas é exatamente assim.
Eu queria que o Natal voltasse a ter seu verdadeiro sentido, porque o apelo do comércio transformou-o, apenas, em troca de presentes e assim perpetua e acentua ainda mais a discriminação social, porque é um dia imensamente triste para crianças pobres, que não podem ter papai noel, nem uma ceia digna.
FELIZ NATAL e que o ANO NOVO seja de realizações, paz, saúde e amor!
Beijos

Pata Negra disse...

Há crises que vêm por bem. Acordaram tarde os governos? Não, os seus protagonistas continuam confortáveis. Acordaram tarde os eleitores? Não, enquanto não tocou a classe média, esta manteve-se orgulhosa, egoísta e arrogante perante os seus que não provavam o bolo!
Tudo se há-de resolver mas não sem abanar as consciências, os políticos, os povos, as pessoas e sobretudo eu.
Um abraço em posição de ataque

7 Pecados Mortais disse...

Infelizmente a crise já se arrasta desde de 2004, nós somos um dos Países da Europa que já se vem habituando com tal, já estamos habituados. A crise Mundial veio ajudar ainda a aumentar esse fosso na nossa sociedade. Para o ano será pior, mas nada que não estejamos já habituados...Viva à crise e aos corruptos que vivem do nosso dinheiro e da própria crise! Grandes gestores...Como dizia o Bruno Nogueira há pouco tempo na Antena 1, agora já não há assaltos ao Bancos, mas sim visitas cordiais ao cofres das famílias que os gerem. Beijos

heretico disse...

muito gartificante ler.te. sempre. um texto sensível e inteligente.

abraços

heretico disse...

"gratificante", entenda-se

Odele Souza disse...

Querida Lidia,

Que possamos "Renascer da Crise" e continuarmos de mãos dadas pelas causas justas.

Obrigada por teus textos que sempre nos induzem à reflexão. Que possamos partir desta para a ação.

Um forte abraço pra ti.

São disse...

Querida Lídia, antes de comentar espreitei o Marreta e venho de lá de lágrimas nos olhos, que acabrarm pr cair completamente aqui, face a mais uma extraodinária reflexão tua, a mais uma denúncia necessária.

Esperemos, como dizes, que algo de positivo se consiga retirar da crise.

Esperemos, como peço a Deus, que se cumpram as profecias dos Maias!!

Esperemos que voltemos a ser PESSSOAS!!


Que Deus te abençõe, Amiga!

Alvarez disse...

Cheguei até aqui através de um "amigo" comum.
Gostei do que li e, de certeza, voltarei cá mais vezes.

Entretanto vai fazer parte dos meus "blogs recomendados"...

Alvarez

António de Almeida disse...

-Depois da tempestade virá a bonança, esta não é a primeira crise que a Humanidade atravessa e certamente não será a última. Não concordo com a análise que deixa implícita sobre a Grécia sem desenvolver, julgo que o problema será meramente local, apenas está potenciado pela crise, convenhamos que não é agradável assistir a fenómenos de corrupção passarem impunes em tempos tão díficeis, isso não é sistémico mas conjuntural. A crise essa sim é sistémica.

Valsa Lenta disse...

Talvez seja a hora de parar e escutar. Os problemas sociais multiplicam-se, e não me parece que o individualismo diminua. Recordo as lembranças de uma jovem voluntária em África que dizia: "... inventamos necessidades atrás de necessidades, e é preciso tão pouco para ser feliz e fazer alguém feliz!"

Felicidades Lídia
é sempre um prazer ler os seus post

Paulo - Intemporal disse...

Lídia

Que a reflexão que faz no seu último parágrafo, represente uma rota, um caminho, para que não se imponha o cansaço, o eterno cansaço.

[a forma como escreve é cada vez mais certeira e feliz]

Feliz por a ter como amiga.

Um abraço apertado.

Meg disse...

Lídia,
Li este post e senti que ele é como um soco no estômago.
Reflectir e agir é preciso. As palavras atropelam-se-me na mente, tantas verdades, tantas vaidades...
Para ti, o melhor Natal possível. num abraço

Teresa Durães disse...

uma economia que já não responde aos problemas actuais. será necessário renascer noutro conceito

Dalaila disse...

talvez!
talvez!
talvez se renasça mesmo

Compadre Alentejano disse...

É bom não esquecer que esta crise financeira internacional caiu, como sopa no mel, sobre a nossa própria crise.
Lembremo-nos que o sr.Sócrates levou o país para uma grave crise interna e que esta crise internacional veio safar.
Já o meu avô dizia que os ditadopres têm todos sorte...é só mais um...
Um abraço
Compadre Alentejano

Å®t Øf £övë disse...

Lídia,
Se a crise nos permitir reflectir e retroceder, então ela serviu para alguma coisa. Serviu para repor os valores morais de uma sociedade que está completamente viciada, cheia de maus costumes, e que está também completamente egocêntrica.
Bjo.

Divinius disse...

Talvez...
Boas festas:)*

Mário Relvas disse...

O mundo está em crise. Uma crise económica e financeira, sobretudo, uma crise séria de valores e de prioridades. Em Portugal, são milhares de milhões de Euros para aqui e para ali. Empresas que estão enquadradas na economia de mercado -ou são rentáveis ou fecham- são injectadas com milhões de Euros do erário público. Mas, está na hora de falar nas condições de vida dos meninos, jovens e adultos diferentes, cidadãos de pleno direito deste país, sempre preteridos e esquecidos. Para estes falta sempre quase tudo. Chegam-me relatos negativos de vários pais, das mais diversas zonas do país, sobre o tão apregoado ensino especial, quer na escolas regulares, quer em associações. Cansados com a eterna interrupção de "férias", em tempo alargado, que obriga à alteração da rotina diária dos autistas, com toda a consequência negativa que daí resulta para eles, bem como toda a necessária alteração da vida pessoal e profissional dos pais, acrescida da enorme dificuldade em encontrar um ATL responsável e que fique com autistas neste período. Depois há a dificuldade das idades... São muito poucos, mesmo raros, os ATLs, em Portugal, que aceitam autistas. São imensas as ddificuldades nas férias de verão, da Páscoa, do Carnaval, do Natal... Para lá da alteração de comportamentos nos nossos filhos, resultante da súbita quebra da rotina diária, extremamente prejudicial ao autista, fica, ainda, a pergunta: e os pais? Têm direito à vida? Podem trabalhar e sustentar a casa? O direito ao trabalho é um direito constitucional. Juntando a isto, a falta de formação específica, sobre o autismo, de quem está, em geral, com os nossos filhos, bem como a falta de condições materiais de apoio simples, como é o caso das AVD - actividades da vida diária-, chegamos à triste conclusão -para quem tem dúvidas- que a situação ainda é má, e não basta dizer que já foi pior. E será que os pais são chamados à educação dos seus filhos como é de lei? Os pais dos autistas estão fartos da crise, há muitos anos. Da crise de prioridades!

Não basta legislar; é preciso cumprir. E melhorar!

Saudações e um sorriso

Paulo - Intemporal disse...

Lídia

Reconhecidamente grato à presença que sob a forma de amizade encontro aqui, venho desejar um Santo Natal, que anseio renovado em essência há muito perdida entre os homens.

Porque o Natal é uma mensagem no tempo, que se quer in.tempo para sempre.

Boas Festas

e um abraço apertado

Zé Povinho disse...

Para pensar e nos prepararmos para o que por aí vem.
O tempo é agora de Natal e de Paz, mas o novo ano é de decisões e importantes para todos nós.
Abraço do Zé

Mário Relvas disse...

Que o Natal seja amigo e solidário.

Que o ano de 2009 conserve a saúde, a amizade e a capacidade de acreditar e continuar a esperança.

Mário Relvas e família