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AS IMAGENS DA TERCEIRA-IDADE NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA


Texto de SONIA DE AMORIM MASCARO* - LEAVES OF GRASS -
http://leavesgrass.blogspot.com/ e ONLY PHOTOS - http://samascaroonlyphotos.blogspot.com/ onde publica textos e fotos com ênfase em temas relacionados à Enseada Azul (ESP), São Paulo e Brasil.


Falar de envelhecimento e velhice pode provocar muitas vezes uma profunda angústia nas pessoas. O temor que mesmo os jovens têm ao pensar que um dia irão envelhecer pode traduzir o receio de viver no futuro uma velhice sofrida, solitária e dependente. Observando as condições de vida e as desigualdades sociais de uma grande parcela de idosos brasileiros, formamos um quadro sombrio do que seja envelhecer, e este panorama pode explicar a existência de uma imagem estereotipada e negativa do envelhecimento e da fase da velhice. A escritora Simone de Beauvoir conta que ao começar a escrever seu livro sobre a velhice, ouvia com freqüência a exclamação "Mas que assunto triste!..."

É também importante perceber que o medo de envelhecer é bem diferente da vivência de envelhecer, como observou a psicóloga e gerontóloga Elvira C. Abreu e Mello Wagner: "Muitas pessoas ao imaginarem a sua própria velhice, receiam que não irão conseguir enfrentar as limitações naturais do envelhecimento, mas quando a idade chega, ela consegue mobilizar vários recursos e viver bem essa nova fase da vida. Por outro lado, se as representações sociais da velhice estiverem fortemente associadas à doença, dependência, improdutividade, pobreza e solidão, muitos idosos irão relutar em identificar-se com essas imagens negativas, e essa atitude pode inclusive representar uma forma de defesa, cujo objetivo é preservar uma auto-imagem e uma auto-estima positiva."


A sociedade tem um papel importante no papel que os idosos irão viver, ou seja, os idosos irão absorver (ou rejeitar), elaborar e recriar os traços culturais e ideológicos do espaço social em que vivem. Numa sociedade de massa, a regulamentação social opera por meio de um repertório de símbolos, de imagens e estereótipos, que são expressos através dos meios de comunicação de massa. Portanto, as idéias que a mídia expressa em relação ao envelhecimento e à velhice são muito significativas, pois podem exercer a função de ponto de referência para os próprios idosos, influenciando seu comportamento e suas atitudes, e também as idéias da criança, do jovem e do adulto, a respeito do que significa envelhecer em nossa sociedade.


Muitas imagens estereotipadas ainda são expressas nos meios de comunicação de massa em relação à sexualidade na velhice. Em algumas novelas de tv, por exemplo, as cenas de amor entre idosos poucas vezes expressam sensualidade, transmitindo a falsa idéia de que na velhice o desejo é extinto: não somos mais desejáveis e nem sexualmente capazes. A imagem estereotipada da velhice sem sexo pode levar muitas mulheres a se convencerem de que com a menopausa, sua sexualidade será extinta e muitos homens a acreditarem que com a chegada da aposentadoria e a conseqüente perda do papel de trabalhador, eles perderão também a sua capacidade sexual. Durante as crises normais que acompanham o envelhecimento, como problemas de saúde, aposentadoria, perda do companheiro, entre outros, os idosos podem também ser afetados por imagens negativas relacionadas à velhice, podendo ter seu auto-conceito diminuído e desprestigiado. Assim, forma-se um círculo vicioso, e os idosos passam a se sentir doentes, incapazes e inadequados.


Quando os meios de comunicação de massa veiculam imagens positivas em relação aos idosos e ao envelhecimento, estão revelando uma nova atitude em relação ao significado dessa fase da vida, o que é muito construtivo. Mas é preciso atenção para não idealizar e "dourar" a fase da velhice, criando outro estereótipo, o clichê de que o idoso bem adaptado é aquele que se apresenta sempre animado, ativo e jovial. Existem muitos idosos que são contemplativos, introspectivos, mas que se sentem bem adaptados e felizes. Imagens idealizadas e também estereotipadas da terceira idade podem levar muitos idosos a um sentimento de inadequação e frustração por não se identificarem com esses modelos de envelhecimento e de velhice.


A nova imagem da terceira-idade


O aumento da longevidade, o progresso social e científico, as transformações na estrutura da família, a modernização dos costumes, acarretaram transformações profundas na sociedade e no comportamento das pessoas. À medida que a longevidade aumenta, mais etapas na vida poderão ser vividas. A expectativa de vida dos brasileiros em 1950 era de cerca de 50 anos, em 2000 era de 70,5 anos e em 2005 a expectativa de vida cresceu para 71,9 anos segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Constatamos assim que "a idade da velhice" está sendo "empurrada para a frente" e os idosos estão tendo mais tempo de vida para a realização de novos projetos. Assim, iniciar uma carreira musical aos 60 anos, encontrar o amor e casar-se depois dos 70 anos, voltar a estudar, a trabalhar, viajar, cultivar novos hobbies e despertar para novos projetos são alguns exemplos estimulantes que revelam novos interesses e comportamentos inovadores.


O desejo de viver intensamente sua própria vida, de realizar novos projetos, de não sucumbir aos preconceitos e estereótipos, faz com que muitos idosos rejeitem a idéia de que na velhice o único papel que lhes sobra é o da "vovó" tricotando e tomando conta dos netos e do "vovô" de chinelos e pijama, sentado na cadeira de balanço. A nova imagem dos idosos transformou também a maneira de nomear as pessoas. Atualmente, chamar aquele que envelhece de velho pode expressar desprestígio ou desrespeito. A palavra velho nos leva a pensar em algo antiquado, desgastado e obsoleto, tendo sido substituída por idoso, que nos remete ao significado de vivência, de passagem do tempo. A palavra velhice tem sido substituída por terceira-idade e também por maturidade. Os jornais têm inclusive uma norma adotada em seus manuais de redação e estilo, que orienta os jornalistas a terem cuidado com a carga de preconceito que a palavra velho encerra. A opção foi usar a palavra idoso ou apenas registrar a idade dos protagonistas da notícia.


Finalizando estas considerações, é importante compreender que envelhecer bem não depende unicamente do idoso. Como observou a psicóloga e gerontóloga Anita Liberalesso Neri, não é verdade que basta se manter ativo, participante e útil, apesar das perdas biológicas, psicológicas, econômicas e sociais, para que o idoso possa vivenciar uma velhice satisfatória. Uma velhice bem-sucedida, com boa qualidade de vida, "depende das chances do indivíduo quanto a usufruir de condições adequadas de educação, urbanização, habitação, saúde e trabalho durante todo o seu curso de vida", e também "do delicado equilíbrio entre as limitações e as potencialidades do indivíduo, o qual lhe possibilitará lidar, com diferentes graus de eficácia, com as perdas inevitáveis do envelhecimento".


Artigo adaptado do meu livro "O Que é Velhice”, Editora Brasiliense, SP, Coleção Primeiros Passos, 1ª. Edição em 1997 e 2ª. Edição em 2004. Índice de temas: O desejo da Eterna Juventude; Um pouco de História; Qual a Idade da Velhice; Teorias Biológicas que Explicam o Envelhecimento; O Envelhecimento Biológico; Imagens da Terceira-Idade; Pensamentos da Maturidade; Envelhecer: Um Desafio e Indicações para Leitura. O livro “O Que é Velhice” foi baseado na minha tese de doutorado, intitulada “As Imagens dos Velhos e da Velhice nas Páginas do Jornal “O Estado de S. Paulo” (1988-91)”.

*SONIA DE AMORIM MASCARO
Brasileira, nascida em São Paulo, Estado de São Paulo, em 28 de novembro de 1942.

Formou-se em jornalismo em 1966 pela Faculdade de Jornalismo “Cásper Líbero”, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Redatora do noticiário da Universidade de São Paulo, Reitoria da USP, (1963-65). Repórter e redatora do jornal “Última Hora”, do Grupo “Folha de S. Paulo”, (1968-70). Repórter e redatora da “Revista Claudia”, Editora Abril, (1968-70) e (1976-81) onde também escrevia a seção mensal “Mulher e Trabalho”. Em 1979 recebeu o “V Prêmio Abril”, na categoria "Jornalismo", pela realização da melhor reportagem intitulada "Para Viver Melhor Como Dona de Casa”. Realizou também matérias como free-lance para o “Jornal da Tarde” (SP), do Grupo “O Estado de S. Paulo” (1986-94).

Pós-graduada em Ciências da Comunicação, pela Universidade de São Paulo, defendeu Dissertação de Mestrado em 1982, na Escola de Comunicações e Artes da USP, com o trabalho intitulado “A Revista Feminina: Imagens de Mulher – 1914-30”. Realizou Curso de Aperfeiçoamento em Gerontologia Social no Instituto “Sedes Sapientiae” (SP) em 1988. Defendeu Tese de Doutorado, em 1993, na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, com o trabalho intitulado “As Imagens dos Velhos e da Velhice nas Páginas do Jornal “O Estado de S. Paulo” (1988-91)”.

Livro Publicado: "O Que é Velhice”, Editora Brasiliense, SP, Coleção Primeiros Passos. 1ª. Edição em 1997 e 2ª. Edição em 2004.

Ministrou cursos de “Criação Literária” e “Atualização Cultural” em instituições culturais. Atualmente tem sua atenção e projetos voltados para o tema da terceira-idade, sob a perspectiva das Ciências da Comunicação.

64 comentários:

SILÊNCIO CULPADO disse...

Sónia Mascaro
É um prazer tê-la neste debate sobre a população idosa, com excelente contributo que, tal como os restantes, apresenta novidades pela sua especificidade e diferentes formas de olhar a presente problemática.
O enfoque nas representações produzidas pelos media, a sexualidade e realizações emocionais vão colocar-nos perante novas questões que irão, certamente, ser entusiasticamente debatidas.
O meu muito obrigada por esta participação.

Sonia disse...

Agradeço muito ao excelente blog "O Silêncio Culpado" pela oportunidade de participar e colaborar neste debate e expressar as minhas idéias a respeito de um tema tão relevante como o da população idosa. Certamente como países irmãos que somos, teremos muitas experiências para trocarmos! O meu caloroso muito obrigada!

São disse...

Sonia.
Parabéns pelo curriculum e pelo artigo.
Foca pontos muito interessantes, sem dúvida.
E é bom não esquecer, de facto, que a qualidade de vida é um conceito tão subjectivo como o da felicidade e que não podemos cair em clichés extremados!
Saudações.

Ludovicus Rex disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Magno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Zé do Cão disse...

Sou um jovem, muito jovem, com idade de ser bisavô. Quis escrever um artigo sobre velhos e não consegui.
Senti-me desiludido e frustrado e admito que é dificil (pelo menos para mim)por nunca ter sido velho e portanto a minha vivência passou e está a passar ao lado desta realidade.
As minhas desculpas publicas......
Bj.

M.M.MENDONÇA disse...

Sónia
Que bom trabalho você apresenta aqui e que nos mostra que há vida depois do meio século e que podemos preencher essa vida com satisfação vivendo a sexualidade, a experiência e o saber acumulado com uma sabedoria que só tempo nos dá.
Os media são responsáveis, em grande parte, pelas conotações negativas associadas aos velhinhos e isto quer lhes chamem velhos ou idosos. A imagem que se pretende passar é a de pessoas que já "não dizem ela com ela", que são assexuadas e que sobram nos cantos e nos bancos e também nas casas dos filhos.
Os media quando se referem a uma pessoa de trinta e tal anos não lhe apõem nenhum adjectivo, porque fazê-lo então com os mais velhos?
Temos que nos opor frontalmente a esta forma de segregação porque ser velho é um estádio natural do ciclo de vida que devemos aceitar e respeitar ao mesmo tempo que se propicia a parte vantajosa que há sempre em todas as etapas do percurso.
Gostava de adquirir o seu livro. Será que o encontro nas nossas livrarias?
Um bem haja à Sónia por tudo quanto aqui nos transmite

SILÊNCIO CULPADO disse...

Zé do Cão
Tu és um grande maroto e estás a estragar-me a surpresa que tenho preparada e que é a de fechar este debate com o excelente artigo que me mandaste. É a cereja em cima do bolo. Bem, agora já todos ficam a saber.
Um beijinho, amigo

Raul disse...

Ontem ouvi nas notícias, que um idoso se suicidou saltando do 4º andar de um lar onde vivia.

Embora pouco se fale do suicídio entre idosos, o certo é que não o podemos ignorar.

Não vou aqui dissecar as causas que levam ao suicídio em qualquer idade e em especial nas idades mais avançadas, mas o certo é que podemos concluir que se ele existe é porque alguma coisa está errada.

A abordagem que a Sónia faz neste texto que é apenas uma adaptação do seu livro é excelente e gostaria de ler a sua obra completa.

A área que estudo e sobre a qual tenho uns pózinhos de conhecimento, é a sexualidade na terceira idade e a sua vulnerabilidade às DSTs (Doenças Sexualmente Transmissiveis) com especial foco na SIDA/AIDS.

A Sonia (e muito bem) aborda este tema no seu artigo e a ignorância dos meios de comunicação social de massa em relação a esta sexualidade.

Claro que a solução não estará somente aqui, mas que é um ponto importante o qual devemos debater, que os mais conservadores não tenham dúvidas.

Uma amiga minha relatou num comentário deixado no meu blog o caso de um idoso que vivia num lar e que se apaixonou por uma velhinha, tendo o lar disponibilizado um quarto para os dois viverem juntos.

Quando a filha do idoso soube, fez uma escandaleira com o pai dizendo que depois de velho é que o pai se tinha tornado garanhão.

Este episódio é apenas um exemplo, da maneira como os filhos e não só interferem com a vida dos velhotes.

Um outro exemplo, um tio meu já nos seus setentas e muitos doou aos filhos todos os seus bens com excepção da casa onde vivia. A construção de uma grande superfície comercial na zona e o plano urbanístico municipal precisavam da casa e de todo o terreno que a circundava.

Os negociadores chamaram um filho para assistir à negociação e para ajudar na mesma.

Começaram a falar mais com o filho do que com o velhote, até que ele se impôs e disse-lhes que os filhos já tinham herdado o que tinham a herdar e que a casa era dele e ele é que mandava.

O filho abandonou a reunião e foi-se embora todo ofendido. A chantagem começou dizendo para ele entrar num acordo, pois de contrário um dia as máquinas vinham e lhe poriam a casa abaixo se não houvesse acordo.

Ele sempre teve licença de uso e porte de arma, e mostrando-a disse que abateria o primeiro que lá entrasse.

Escusado será dizer que conseguiu condições muito mais vantajosas.

No dia de escreverem o contrato ele com uma advogada que contratou, lamentava-se que iam ali construir uma torre de muitos andares e lhe estavam a dar uma ninharia.

O negociador para o tranquilizar e para ele assinar o contrato disse-lhe que iam apenas construir um prédio de cinco andares. Ele de imediato exigiu que ficasse escrito no contrato que por cada andar a mais teriam de lhe dar ou aos seus herdeiros um apartamento por andar.

Resultado vai ali ser construída uma torre com perto de vinte andares.

Afinal quem é que torna os velhos incapazes e inúteis? Será que as mudanças biológicas são o principal factor para essa degradação, ou somos todos nós que contribuímos para que ela aconteça rapidamente?

Proteger os nossos velhotes e amá-los sim, oprimi-los e considerá-los uns tolos nunca.

Deixemos que os velhotes livremente construam a sua felicidade nos últimos anos de vida. Temos de nos lembrar que um dia lá chegaremos também.

A Rosário diz que é mau ser velho mas pior é nunca chegar a sê-lo. Perante o actual estado de coisas não sei se estou de acordo com esta citação.

Voltando ao tema do suicídio na terceira idade e se continuarmos a proceder como o temos feito até agora é muito possível, que no futuro (embora não esteja enraizado na nossa cultura) se comecem a formar grupos culturais e seitas que poderão desenvolver ideias de suicídios colectivos.

Um idoso que se suicide é apenas um velhote que não batia bem da tola. O suicídio em grupo não poderá ser visto da mesma forma e é um grito de revolta para que acções venham a ser tomadas.

Este risco não é só aplicável à terceira idade. O alerta está dado e não considerem o suicídio um acto de cobardia, mas sim de grande coragem.

Os mais sensíveis que me perdoem, mas tinha de meter o dedo na chaga.

Os que acham que o comentário é longo, é devido à minha incapacidade de síntese, perdoem-me também.

Vou tentar pôr muitos parágrafos para poupar os olhos da São e não só.
Abraços

Templo do Giraldo disse...

http://templodogiraldo.blogspot.com/

Passem por aqui.

SAUDAÇÕES

AJB - martelo disse...

o que é bom é viver, mas sempre com dignidade física e mental...

JOY disse...

Deve ser uma preocupação dos governos criar condições de vida minimamente aceitaveis para os idosos,com a esperança de vida a aumentar e a população a envelhecer, torna-se necessário aumentar o nº de locais onde os idosos se sintam acarinhados ,acompanhados e possam conviver ,não esquecendo as várias actividades que podem estar envolvidos.Obviamente que o ideal seria as familias tomarem conta dos seus idosos ,mas todos sabemos o quanto na maioria das vezes se torna complicado com os ritmos de vida actuais. Nunca nos devemos esquecer do apoio e do carinho que devemos aos nossos idosos pois não nos devemos esquecer que os jovens de hoje serão os idosos de amanhã.
Amiga Lidia tenho estado ausente mas arranjei um momento para te visitar e te deixar um forte abraço.

Fica bem ,minha amiga
JOY

elvira disse...

Direitos de idosos é coisa que não temos em Portugal. Mas também valha a verdade, é que exceptuando os políticos e os tubarões das empresas, direitos é coisa que praticamente não existe para ninguém.
Agradeço a visita no Coisas Minhas.
Um abraço

C.Coelho disse...

Sónia
Este artigo, adaptado do teu livro, fala do conceito de idoso, mais estigmatizado ou menos estigmatizado (parece que velho é pior que idosos mas para mim é exactamente a mesma coisa). Mas falas sobretudo numa vida que deve ser vivida de forma completa e não desmembrada em simulacros de vida que representam os nossos tabus e as nossas desvalorizações.
Tudo isso é verdade mas, volto a insistir, existe uma realidade para quem tem posses e outra para quem não as tem como aliás tu reconheces na forma como rematas.

«Uma velhice bem-sucedida, com boa qualidade de vida, "depende das chances do indivíduo quanto a usufruir de condições adequadas de educação, urbanização, habitação, saúde e trabalho durante todo o seu curso de vida", e também "do delicado equilíbrio entre as limitações e as potencialidades do indivíduo, o qual lhe possibilitará lidar, com diferentes graus de eficácia, com as perdas inevitáveis do envelhecimento".»

Depois de seguir as várias exposições e ler os diferentes comentários mais me sobressaem o número de situações díspares que separam as pessoas das faixas etárias mais avançadas e o significado de que se reveste a vida em todas estas circunstâncias.

O sol não nasce para todos nem se põe para todos igual.

Marreta disse...

Posso não vir acrescentar nada ao que já foi dito, mas a minha revolta e repugnância tem a ver com a forma como os idosos são emprateleirados, excluídos, encaixotados, como se ao atingirem determinada idade tivessem impreterívelmente terminado a sua função no planeta e o seu papel na Humanidade estivesse concluído.
Nos meios laborais isso é mais notório e revoltante e o mais grave é que esse limite temporal cada vez mais é levado aos extremos.
Neste aspecto dou grande valor às civilizações orientais, nomeadamente à chinesa, em que um idoso é "venerado" e respeitado como um poço infindável de sabedoria e experiência, coisa que nas civilizações ocidentais parece ter sido esquecido e caido em desuso.
Saudações do Marreta.

Menina do Rio disse...

Lidia, existe uma parcela de idosos (infelizmente muito pequena em função do padrão de vida da maioria) que está bem engajada na sociedade, incluindo o universo virtual e isso é um passo á frente dos conceitos ultrapassados sobre velhice. Olhando no contexto geral, houve um tempo que ter mais de 40 anos era ser idoso e hoje eu me orgulho quando olho em volta e vejo pessoas com 55/65 anos ou mais participando ativamente da sociedade, envolvendo-se em projetos, conquistando espaços que até pouco tempo era quase que exclusivo de jovens. Isso é sinal que aos poucos as pessoas vão se conscientizando que somos todos seres humanos, independente de quantos anos tenha-se vivido.

Deixo-te aqui meu sorriso bobo pelos coments que me fizestes no albun. O Tofu é uma gracinha e tb é um viralata que peguei na rua.

beijinhos de boa noite ebons sonhos

António de Almeida disse...

O temor que mesmo os jovens têm ao pensar que um dia irão envelhecer pode traduzir o receio de viver no futuro uma velhice sofrida, solitária e dependente.

-Bingo! Por isso mesmo é que por vezes se ignoram os mais idosos, por medo de encarar o próprio futuro. Esse sentimento vai-se esbatendo proporcionalmente ao envelhecimento. Pior mesmo que encarar a nossa própria velhice, só mesmo a nossa morte, supremo tabu, o problema é MEDO.

Mary disse...

Silêncio
Vejo que continuas com o tema dos idosos. Os idosos, os velhos, os velhinhos, os ansiãos, os sexagenários e tudo o mais que sirva para designar este patamar da vida, de que não há regresso, é algo que me aflige, que me sufoca, que me revolta e que me faz ter vontade de gritar.
Sou nova, perdi o meu companheiro para tomar conta da minha mãe, ganho uma miséria que não dá nem para a pôr num lar nem para arranjar quem me ajude. Sinto que perdi a minha vida, que me mataram, mas ninguém olha para mim só para a minha mãe que é muito simpática para as visitas e que "coitadinha" não se pode locomover como as outras pessoas.
Tenho que fazer tudo e preocupar-me com tudo e todos os dias morro e me ergo cansada e trabalho feita escrava em troco dum ordenado de trampa.
Tenho 32 anos e sou idosa. A vida para mim não tem sentido.
Se querem dar vida aos velhinhos que dêem mas não se esqueçam que velhinhos podem ser pessoas como eu privadas de tudo e vivendo com e como idosas.
Um abraço e desculpa mas hoje tinha o saco cheio.

Zé do Cão disse...

Minha querida amiga Silencio Culpada. Perdoa-me e mais não digo.
Pressupondo que autorizas, vou assanhar o meu canito (cão do Zé) ás pernas da Menina do Rio, que tem um "viralata" e a Mary.
A criança que é o Zé, tem e já viu varias vezes "O Cão e o Vagabundo" do Walt Disney. E aquela cena na traseira do Restaurante Italiano a comer esparguete com a sua Dama, é duma beleza extraordinária. Quando oiça falar que alguém recolheu um viralata, aquela imagem vem-me imediatmente à memória.
Mary - Com imagem tão bonita, com
uma piscadela tão sugestiva, não pensaria nunca no drama que estás vivendo. Os teus dramas são dramas
que fizes-te bem desabafar.
E ás 3 mulheres que me dirijo 3 respeitaveis beijinhos.

Zé do Cão disse...

Minha querida amiga Silencio Culpada. Perdoa-me e mais não digo.
Pressupondo que autorizas, vou assanhar o meu canito (cão do Zé) ás pernas da Menina do Rio, que tem um "viralata" e a Mary.
A criança que é o Zé, tem e já viu varias vezes "O Cão e o Vagabundo" do Walt Disney. E aquela cena na traseira do Restaurante Italiano a comer esparguete com a sua Dama, é duma beleza extraordinária. Quando oiça falar que alguém recolheu um viralata, aquela imagem vem-me imediatmente à memória.
Mary - Com imagem tão bonita, com
uma piscadela tão sugestiva, não pensaria nunca no drama que estás vivendo. Os teus dramas são dramas de velhos........
E ás 3 mulheres que me dirijo, e respeitaveis beijinhos.

Odele Souza disse...

O tema sobre a velhice nos leva à muita reflexão. Uma das coisas com que me preocupo é a depressão que muitas vezes toma conta dos idosos, fazendo com que vivam apáticos e percam o interesse pela vida. Essa depressão tem causas diversas, mas a mais comum é mesmo a falta de atenção da família. Casos relatados de idosos "maus", são minoria.

Um abraço.

Eduardo P.L. disse...

O Silêncio Culpado esta de parabéns por postar esse excelente livro da Sonia A. Mascaro.
Li e gostei muito!

Abçs

quintarantino disse...

Sonia, desconhecia esta sua faceta de envolvência mais profunda no mundo das Letras mas devia ter desconfiado quando brilhantemente nos apresentaste nos blogues por onde nos cruzamos não só obras de arte sobre animais, como prateleiras carregadas de livros.
Gostei de te ler.

Flor disse...

Olá boa tarde! :)

Os idosos já foram jovens.....

Mas os jovens não sabem se chegarão a idosos....

IDOSOS... um tema que me toca particularmente, pois amo idosos.... tenho a minha mãe com quase 83 anos... e faço voluntariado com senhoras idosas da minha igreja... senhoras que sofrem de solidão....

A solidão nos idosos é um problema a ter em conta.... Eles merecem ter um final de vida digno e cheio de amor..... amo idosos... acho-os "um poço de sabedoria"... aprendo com as suas experiências de vida.... bem, já vai longo o meu desabafo! :)

Obrigado por partilhares connosco temas tão interessantes....

Quando saio daqui, do teu cantinho, vou sempre a "matutar" no assunto em destaque....

Abraçinho da Flor e CONTINUA!

São disse...

Raul, muito obrigada pel cuidado !

Lídia, minha linda, talvez fosse bom abrires espaço para se falar da outra face da moeda, isto é, das pessoas de idade que escravizam a família e que , desgraçadamente, não são tão poucas quanto isso.

Talvez pareçam menos porque a maior parte das denúncias vai no sentido de quem maltrata e abandona os pais , com o que concordo : nunca será demais desmascarar quem explora os pais e não os cuida.

Mas é necessário também alertar para a crueldade inerente à situação inversa.

MarY, já lhe dei o meu apoio no seu blog, mas não obtive resposta ( pelo menos, no meu) e, se a incomodei, o objectivo não era esse!

Saudações a toda a gente e um grande abraço para ti, querida Lídia!

SILÊNCIO CULPADO disse...

Mary
Sobre a tua confissão quero dizer-te o seguinte:
A minha experiência de vida, nomeadamente na blogosfera, tem-me conduzido a pessoas extraordinárias que lutam com dramas pessoais profundos e que fazem deles uma força e um exemplo de vida.
A Odele Souza, uma cidadã brasileira cujo comentário encontras aqui, tem uma filha de 20 anos que está, há 10 anos, em coma vigil, devido a um acidente na piscina do prédio onde morava. Odele luta para que a justiça se cumpra em relação à sua filha, que foi vítima dum equipamento mal concebido e perigoso, e em relação a todos os casos semelhantes em que os culpados não foram devidamente responsabilizados pelos seus actos. Mas Odele não fica por aqui. Odele aprendeu a olhar, com mais amor, à sua volta e ainda encontrar espaço para se solidarizar com outras causas e outras lutas.
O que se passa com Odele passa-se com Mário Relvas, que tem um filho autista que acaba de completar 20 anos. Mário não descansa na sua luta titânica pelos direitos dos autistas e pela necessidade de olhar o mundo do autismo com uma atenção redobrada. Mário apela às oportunidades de aprendizagem duma interioridade desconhecida com causas e efeitos ainda não de todo concludentes. Mário Relvas informa, participa e entrega-se em nome do filho que ama, em nome duma ciência sempre em mutação, em nome de todas as vidas que precisam dele e da sua solidariedade e cidadania activas.
Aproveito aqui para pedir à Sónia Mascaro que me ajude a divulgar estas causas quando elas forem debatidas no Silêncio Culpado logo a seguir ao tema dos idosos.O mesmo pedido irei fazer a outros visitantes e participantes.

Mas voltando ao teu problema, Mary, quero recordar-te que há muito sofrimento sobre a face da terra. Situações bem mais dolorosas que a tua. Porque a tua situação não é irreversível. Poderás vir a ter um trabalho mais bem remunerado e encontrar alguém que te ame a sério. Porque esse teu companheiro que te abandonou pelo problema que carregas não te amava e, por isso, não deverá fazer-te falta. Nós só precisamos de quem é capaz de estar ao nosso lado nas situações difíceis porque nas outras não falta quem.
Todos nós temos a nossa cruz mas, mais importante que a cruz, é a forma como a conduzimos.E devemos sempre acreditar que há um caminho e devemos sempre lutar para seguirmos por esse caminho.
Beijinhos

SILÊNCIO CULPADO disse...

SÃO
O lado dos filhos também tem que ser visto e já foi aqui referido várias vezes. Porém ,dos textos recebidos, ninguém enfatizou esse lado. Se tal vier acontecer, até ao fim do debate, não deixarei de publicar porque é uma face da moeda que também tem que ser conhecida.
Beijinhos, amiga.

Mary disse...

Lídia
Obrigada. Tens razão e fizeram-me bem as tuas palavras mas não sou essa super-pessoa que acho que teria que ser para fazer tudo isso.
Tu és formidável e admiro-te.
Beijinhos

Mary disse...

Queridos visitantes e amigos do Silêncio Culpado


Espero que me perdoem não responder aos vossos comentários um a um quer aqui quer em vossa casa.

Cada um tem a vida que tem e as disponibilidades são diferentes.

Estou a escrever num intervalo do trabalho que é desgastante.

Chego a casa e tenho que fazer as lides da casa e cuidar da minha mãe.

Não me posso dar ao luxo de pôr posts novos todos os dias e de visitar todos porque de todo não consigo.

A São parece ter ficado zangada comigo mas o que se passa comigo passa-se com outros blogueiros.

Há quem não tenha computador nem dinheiro para internet e use os espaços públicos.

Aprecio muito a solidariedade da São e tudo o que escreve e espero que me compreenda mas cada vida é uma vida e cada um sabe de si.

Não é desprimor pelos outros, acreditem e muito menos pela São.

Abraços e obrigada a todos pela atenção que me dispensaram.

Compadre Alentejano disse...

Vou tentar envelhecer o mais naturalmente possível. com a minha Maria ao lado, e sem veleidades de conquistar uma brasileira de 30 anos...
Portanto, jogar rasteiro e sem levantar muitas ondas...
Bom post. Parabéns.

G.BRITO disse...

Começo por dar os parabéns à Lídia/Silêncio pelo excelente debate que está a proporcionar e à Sónia Mascaro pelo seu curriculum e pelo texto que apresenta.

A população idosa, apesar da ideia da finitude e dos achaques mais frequentes quando se tem mais idade, poderia beneficiar de condições excepcionais que não existem nas outras fases da vida.

Uma experiência e maturidade que aportam a sabedoria; uma maior liberdade por não estarem sujeitas a patrões nem a horários; uma maior independência por não terem filhos para criar.

E todos estes privilégios associados ao facto de que hoje as novas formas de vestir, os bons health centers, podem tornar os mais velhos igualmente charmosos e bonitos e capazes de viver o amor descontraidamente e com uma maior liberdade e espontaneidade.

O problema está em que envelhecer e manter-se jovem não é para quem não tem recursos.

Relativamente à dependência em relação aos filhos sou do parecer que, quando não há dependência económica e os recursos permitem outros convívios e actividades, os velhos não ficam tão chatos para com os filhos nem os filhos se intrometem tanto nas suas vidas.

O drama é quando as dificuldades se entrosam gerando violências intrínsecas.

Robin Hood disse...

Com a entrada nos entas rapidamente se dá entrada no que se chama a população idosa. Não vejo que ter mais idade possa representar um problema de lesa majestade. Há pessoas jovens que, por doenças ou acidentes, estão mais incapacitadas que outras mais velhas. Não se morre só em velho também se morre em novo. Tem é que se dar às pessoas condições para viverem com, pelo menos, os mínimos que permitam ter vida e não morte.
Apoiar os velhos é obrigação dos mais novos e não me venham com a história do velhinho mau e malandro. Há casos mas a maioria não são assim. E mesmo nesses casos a compaixão deve estar presente em quem acha que é melhor.

Mac Adriano disse...

No Brasil não sei, mas em Portugal os velhos são todos tão saudáveis, tão saudáveis que, em vez de o governo lhes dar cuidados de saúde gratuitos, dá-lhes telemóveis. Como diria um outro velho que, felizmente, morreu mesmo muito velhinho: "E esta, hein?".

zé lérias disse...

Depois da leitura deste belíssimo texto de Sónia de Amorim Mascara, apeteceu-me ir a correr à livraria mais próxima para comprar o livro aqui anunciado ou encomendá-lo.
Prém, como não são horas de comércio aberto, vou aguardar para amanhã. Pelo sim pelo não vou agora enviar um e.mail a um familiar que reside em S. Paulo para ver se é fácil a aquisição da 2ª Edição de "O que é a Velhice".
Este é um tema aliciante sobre o qual escrevi há uns anos, mas só para mim. Eram umas tretas de um (já) velho/maduro/idoso/sénior/.... onde a páginas tantas dizia: "Um homem, novo ou velho, depois de morto, é eterno, visto que por incapacidade indutiva, nunca reconhecerá que morreu"".
Nessa altura, o que escrevi reflectia apenas uma forma de eu exorcizar o meu papão da morte.
Hoje, ainda mais maduro, vejo que me fez bem ter reflectido daquele modo. Mas tão só porque vou tendo condições para suportar essa velhice com alguma dignidade.
Há porém muitos que não têm essas condições, nem de saúde nem de recursos outros.
Como podem esses passear a última etapa que lhes resta, se nem condições têm para se auto-convencerem duma ingénua mentira?
De facto, a velhice tem múltiplas formas para ser vivida na primeira pessoa, o que é diferente das variadas maneiras de, não velhos, escreverem sobre ela.
Creio não ser fácil pormo-nos na pele de um idoso que, por força de circunstâncias conhecidas, deixou de ter família e dinheiro para se instalar num lar com o mínimo de dignidade.
Mas não devemos desarmar. Todos juntos, um dia, iremos restituir (seja em que século for) a dignidade perdida dos velhos. E dos outros. Basta que lenta mas perseverantemente continuemos (os que quiserem) a lutar.

PS:
Graças a este tema postei hoje um poema de Hélia Correia

ABEL MARQUES disse...

Também quero pensar o que é ser velho aqui e agora. Já entrei na idade em que se diz idoso mas ainda sinto o corpo pulsar e o coração bater quando me fazem boa companhia.
Vejo o sol nascer e sinto a alegria,
e com a Primavera sinto desejos de amar em plenitude.
Não me sinto velho porque tenho saúde, vivo e sou autosuficiente. E tenho meios para fazer tudo isso.

Sónia Mascaro diga-me como se pode obter seu livro. Gostei, gostei, gostei.

Abração

O Guardião disse...

Não sou tão velho quanto isso, mas sou avô e até já atingi a reforma, mas há uma coisa que me parece evidente, é que a velhice pode ser encarada com alguma naturalidade enquanto nos sentimos bem com as nossas capacidades (somos autónomos) e enquanto nos sentimos úteis de algum modo. Com o aumento da esperança de vida, e com a falta de qualidade da mesma, seja por doença, pouca capacidade financeira, miséria mesmo, abandono familiar, etc, o idoso definha e não encontra alegria nenhuma no viver triste e sofrido a que está condenado. Eu tenho testemunhado isto nas minhas idas semanais a um lar onde tenho um familiar e onde passo sempre uma tarde inteira.
Cumps

Daniel J Santos disse...

Excelente Sónia, muito bem.

Desconhecia todo este teu lado e todo este teu percurso, aliás só conhecia a tua faceta mais fotográfica.

Falas e bem sobre o estereotipo colocado às pessoas a partir de uma certa idade, onde é dada a imagem do "acabar".

Nada mais errado, deve ser considerado como o começo de uma nova etapa, o avançar com novos desafios, o sentido de continuarem activos.

Mais uma vez excelente texto.

Manuel Damas disse...

Tem prémio no meu blog.
BJ

C Valente disse...

Desculpa mas confesso, tenho medo da velhice, ou melhor, não da velhice como idade, mas com a doença que por vezes surgecom o avançar da idade.
será parvoice, mas há factores que a não controlamos.
saudações amigas

Joseph disse...

Sónia Mascaro
Reverencio-me perante tão excelente texto.

O que mais me preocupa na vida são os estigmas da luta contra o tempo. Nós temos um tempo destinado para irmos para a escola, para concorrermos ao emprego, para casarmos, para termos filhos, etc. E é esse tempo socialmente imposto que determina o nosso percurso e não a nossa vontade nem as nossas aptidões. Se eu não me formar e adquirir qualificações para concorrer ao mercado de trabalho até aos 28/30 anos, se eu não.... É este espartilho que não suporto!.... É um sufoco das sociedades avançadas que funciona como um retrocesso e uma negação.
Já passei os 50 anos, não estou careca e acho-me em boa forma. Tenho vontade de fazer as mesmas coisas que fazem os meus filhos mas com mais sabedoria . Todavia há um tempo que já não é para mim por muito que eu o queira agarrar e por muito que tudo em mim esteja em condições de receber esse tempo.

Sónia, vou contar-te um episódo que me marcou e me fez sentir velho. Tenho um filho e uma filha ela com 22e ele com 26. Sou divorciado e vivo com eles. Decidimos sair para jantar e fomos até às docas de Alcântara. Pois os meus pequenos não descansaram enquanto não vieram pôr o cota em casa para ficarem avontade.

Quando me apaixonei de novo com 45 anos disseram-me para ter juízo porque nesta idade dá-se umas quecas mas já não nos apaixonamos. Claro que eles até foram solidários comigo quando a relação terminou e me viram chateado mas lá bem no fundo acredito que ficaram aliviados.

Sinto-me em pleno uso das minhas faculdades, acho-me ainda com ar jovial, amo a vida mas a vida já está arredada porque o tempo me estigmatiza.
É isto que me dana, Sónia.

Boris disse...

Todos discutem a velhice
mas que grande confusão
a velhice é cretinice
uns são velhos outros não.

Há quem nasça logo velho
mais propenso à exaustão
e há quem tenha mais guita
pesem os anos ou não!

Não sei porque que se aponta
a idade como um mal
e jogamos ao faz de conta.
O tempo não passa igual

pelo rico e pelo pobre?
Não é bom somar mais anos
e vivê-los com esplendor
pois já sabemos os enganos?

Não gosto de ouvir falar
em velhinho e em idoso
apetece-me gritar
porque ainda estou gostoso

e tenho muito p´ra dar!

Sheila disse...

O Silêncio Culpado não pára de nos apresentar sempre novos autores e Sónia Mascaro, se não me engano, é uma estreia. Uma estreia aqui neste blog mas que exibe atributos de relevo nomeadamente um texto que escreve com mestria mostrando a sua visão sobre a terceira idade.

Ainda estou longe de lá chegar mas gostaria, se não morrer antes, de viver também esta fase da vida intensamente e de realizar novos projectos sem me deixar sucumbir a preconceitos e estereótipos.

Jamais me imaginaria no papel de "vóvó" tricotando e tomando conta dos netos pese embora considerar que não tem mal nenhum em fazê-lo bem antes pelo contrário. O mal está no selo com que se pretende catalogar os actos quotidianos como que atirando borda fora todos aqueles que não correspondem ao executivo(a)bem sucedido, elegante e com voz activa porque ocupa uma posição de relevo.
A comunicação social, o cinema e tudo o mais têm que contribuir para a formação duma opinião justa que não discrimine, que inclua e que incentive a viver.

Se os media desvalorizam os mais velhos, se a escola não incute valores que os ensine a respeitar, é meio caminho andado para que a família, já sobrecarregada com a vida dura, se sinta propensa a rejeitá-los.

Uma por Dia disse...

Cheguei aqui por sugestão da sónia e surpresa!!...Um blog sério e á séria.
Tenho de vir aqui com mais tempo pois interesso-me por temas humanos e reais uma vez que sou estudante de antropologia. Os estudos apenas nos dão números e como refere a sónia, os media, apenas uma faceta.

joshua disse...

O Brasil tem um problema natural com a fase idosa do indivíduo. Sob tanta fecundidade e tanto sol, há a nudez do corpo é um imperativo de usufruto imediato. Problema que conduz ao escondimento e obliteração social, quase, do velho por opção própria e pressão ambiental, cultural, mesmo.

O paradigma da juventude e a plenitude do uso dos seus prazeres conforma toda a sociedade brasileira e centro-sul-americana.

E Europa, pelo contrário, vive a juventude na óptica da prudutividade e da acção sendo o efectivo uso dos prazeres uma dimensão intermitente, frequentes vezes uma utopia no presente e uma forte possibilidade no futuro, enquanto velhos.

Aqui, a angústia na verdade é ser jovem e fazer parte de uma massa privada dos prazeres e dos lazeres porque privada do trabalho e dos recursos mínimos que acautelem qualidade e dignidade em qualquer fase da vida.

Ora se se envelhece conforme se vive e até por oposição ao que se viveu, a fase da Reforma e do Cúmulo de Anos pode constituir, conforme tenho testemunhado, uma completa reedição adolescencial e uma acrescida intensificação dos prazeres restantes. A busca de companhia e de boa conversação tornam-se obcessões.

Talvez só na Europa todos os idosos sul-americanos pudessem florescer de desacabrunhar nos casos mais extremos de fuga à dimensão socializada do lazer, do prazer e do ócio com sentido.

Discorro por puro prazer de discorrer. Gostei do teu discurso, Sonia!

PALAVROSSAVRVS REX

Louise disse...

Sónia, gostei muito de conhecê-la e de ler o seu texto.

Não percebo como é que se pode defender que há uma fase na vida em que o ser humano é mais valorizado - a fase em que possui um trabalho, seja ele por conta própria ou por conta de outrém -, passando a seguir a ser desvalorizado e conotado como velho e inútil.

E aqui começamos a questionar se devemos empurrá-lo para casa dos filhos ou para uma instituição como se dum fardo se tratasse.

Esta forma de encarar a velhice cruel e quase animalesca, é mais acutilante nos países desenvolvidos com economias de mercado cada vez mais globalizadas e competitivas, em que só o lucro conta.

A terceira idade é uma fase de ouro da vida em que se se estiver bem de saúde, poderá ser duplamente vivida por oferecer uma maior liberdade em que a pessoa pode realizar projectos com que sonhou e não pôde concretizar por falta de tempo.

A dimensão social da terceira idade está muito ao nível das ideias que deverão ser combatidas no que concerne a estereótipos.

Também deverão existir centros de apoio e lares que permitam, através do apoio ao domicilio, manter nas suas próprias casas as pessoas mais velhas, preservando os seus hábitos e a sua independência e também a vida dos filhos que têm todo o direito de vivê-la conforme a entendem.

Há também que deixar aos idosos as possibilidades de se realizarem emocionalmente porque sexo não é só o acto sexual.

É também o namoro, o andar de mãos dadas e todo aquele élan que dá sentido à vida.

Aninha Pontes disse...

Parabéns ao blog por assunto tão interessante e importante.
Parabéns à Sônia, pela sensibilidade com que trata o assunto.
Aliás, muito bem abordado, envelhecer, é assim, bonito, e não existe nada daqueles medos que tínhamos antes da idade chegar.
Esta história de dizer, que um casal depois de vinte anos juntos só sobra a amizade é uma grande lenda.
Fica em primeiro lugar uma grande amizade que conquistamos. aliados a um amor maduro gostoso, com muito respeito, um sexo com grande qualidade, porque aprendemos muito.
A sabedoria começa a fazer parte de nossos dias, e isso é positivo, quando fazemos o que queremos e como queremos.
O sexo nesta idade, em quantidade e qualidade se faz presente, e é muito bem vindo.
Enfim, nem vejo necessidade de camuflar com nomes tipo "melhor idade", ou coisas assim, Envelhecer sim, e envelhecer bem.
Beijos

parvinha disse...

Gosto de passar cá com tempo, para ver tudo com calma.

Simplesmente adorei o texto, muito emotivo e verdadeiro e tal como muitos fiquei com vontade de ler um dos livros.

Gosto de ver os comentários com diferentes pontos de vista, todos a comunicarem.

Adorei as palavras sábias da Lídia como sempre, sou tua fã, ouviste?(risos)

E cá está a parvinha com 33 anos que tem como lema viver o presente, mas viver o presente em pleno, julgo que é estar informada e solidária com todos.

Moro numa zona típica de Lisboa onde existem muitos idosos, com a informação deste blog torno-me numa pessoa menos egoísta.

Os meus pais faleceram ambos de cancro, não tenho idosos na familia, mas tenho alguns velhinhos emprestados com 70, 80 e que bons conselhos me dão e fazem-me sorrir, e esta????

Beijinhos para todos e um na boxexa para a Lídia(risos)

Carlos A. Mascaro disse...

Sonia, sua colaboração num veículo de comunicação Português é uma ótima oportunidade para a troca de experiências entre os dois países, Brasil e Portugal. O tema idosos é bastante importante e oportuno, quando a população de idosos do mundo todo está crescendo graças à melhor qualidade de vida que tem permitido uma expectativa de vida maior.

Sonia disse...

Para M.M. MENDONÇA, ZÉ LÉRIAS, ABEL MARQUES E PARVINHA:

Em primeiro lugar agradeço muito as palavras elogiosas ao meu artigo e também fico contente pelo interesse pelo meu livro "O Que é Velhice". Vocês poderão comprar o livro online, pelo site da Livraria Saraiva, cujo endereço é este aqui: LIVRARIA SARAIVA.

Vi Leardi disse...

Sonia, parabéns pelo ótimo debate e exposição de tão diversas opiniões que este textos e ou comentários tirados se seu livro, nos proporcionou.
A minha falta absoluta de tempo não me permitiu ainda ler na íntegra este teu maravilhoso estudo e depoimento sobre a difícil passagem do tempo,que como dizia minha avó, ou passamos por ela ou morremos cedo...Nada melhor do que estar vivo, mas sentir os anos passando,especialmente acompanhando suas pessôas queridas que já tiveram uma vida com muita beleza e independência, não é uma tarefa fácil.Em algum lugar ,já não me lembro aonde ,li que para alimentar o ido dos anos com tranquilidade e prazer ,devemos colecionar todos os nossos momentos de sucesso juventude realizações felicidade e amores, e guardá-los como um tesouro pois serão estes guardados que te daram ânimo e alto estima para enfrentar este período da vida,por vezês acometido por doenças ou perda financeira. Acho isto muito verdadeiro.
Muito difícil generalizar, como em tantas coisas cada caso é um caso.Conheço jovens que são idosos, e idosos que são de uma jovialidade e auto estima invejável, se exercitando todos os dias e tirando proveito de todos os anos de conhecimento e vivência.
Uma coisa porém é certa ...as pessôas que tem a felicidade de compartilhar, esta "terceira idade" com um companheiro/a, sem dúvida, na maioria das vezes, terá uma melhor qualidade ,e tempo de vida.
Tudo melhora, a motivação de se manter bem,e se sentir querida pelo sexo oposto é, e sempre será o segredo da maioria das pessôas que se dizem felizes .

Um grande poema de Fernando Pessoa,diz; nunca olhe para além da curva da estrada...entre em cada uma delas a seu tempo...

Parabéns mais uma vez pela tua clareza.Beijos muitos.

São disse...

Falando de sexualidade : é bom ter presente que esta não se resume só à cópula, pois isso até os animais praticam.

Talvez o que seja mais importante,em todas as épocas da vida, é a cumplicidade e afectividade, acho eu!!

JOSEPH, caríssimo, desculpar-me-á...mas até percebo os seus filhos: é que o meu amigo é pai deles e não amigo. Penso que não ´passa tanto pela idade, mas sim pelo tipo de relação.

Mary:
Não me aborreço por tão pouco!
Mas como, efectivamente, não gosto de maçar as pessoas ...foi só por isso que levantei a questão!

Fiquem bem!

Para ti, Lídia querida, o meu fraterno abraço!

René disse...

Acredito que ser velho no Brasil não seja exactamente a mesma coisa que ser velho em Portugal. No entanto, por aquilo que conheço, o Brasil também está a ser devassado pela cultura do ter, a qualquer preço e a qualquer custo, porque só se é reconhecido socialmente quando se exibem opções de consumo privilegiadas seja a nível material seja a nível do simbólico.

Com esta cultura desumanizada os grupos mais frágeis, nomeadamente a população idosa, são relativizados e diminuídos a menos que o seu status lhes permita o tal ter que confere respeito aos outros.

Mais uma vez se verifica que as mesmas realidades são vividas e percebidas de diferentes maneiras consoante as condições de vida que lhes estão subjacentes.

Parabéns à Sónia Mascaro e vou aproveitar a dica para adquirir o livro.

fotógrafa disse...

Olá boa noite...passando para desejar um bom fds
abraço

herético disse...

beijos. excelente temas. e boas razões. as tuas.

Pata Negra disse...

Sou sensível à velhice embora não a espere! Tenho na memória umas lições de história da cultura fenícia e do poder dos anciãos! Talvez fosse bom haver uma câmara no parlamento só com eles e onde não pudessem estar os que passaram pela política...os soares e etc...
Silêncio, anda por aqui gente que pensa e age, lê-se! Mas tu estás de parabéns pela tua força!
Um abraço de bengala

Peter disse...

"O desejo de viver intensamente sua própria vida, de realizar novos projetos, de não sucumbir aos preconceitos e estereótipos, faz com que muitos idosos rejeitem a idéia de que na velhice o único papel que lhes sobra é o da "vovó" tricotando e tomando conta dos netos e do "vovô" de chinelos e pijama, sentado na cadeira de balanço. "

EU REJEITO FIRMEMENTE!

lua prateada disse...

Não chore, porque chorar é sofrer.
Não sofra, porque sofrer é perder.
Não perca, porque perder é morrer.
Só ame, porque amar é viver.
E viver é amanhecer neste fim de semana, com alegria, amor, magia ...
Feliz fim de semana
Beijinho prateado com carinho
SOL

C Valente disse...

Boa noite e saudações amigas

SILÊNCIO CULPADO disse...

A todos os visitantes e participantes


Agradeço a colaboração que muito enriqueceu a troca de opiniões neste espaço e à Sónia Mascaro, muito especialmente, a sua excelente participação.

Jôka P. disse...

Sonia, o seu texto é sensívele e tem um olhar generoso sobre a velhice. Convivo com idosos e sinto sinceramente que a velhice, mesmo em umna situação confortável, é muito triste, degradante e extremamente deprimente.
Mas ainda é uma alternativa melhor que morrer jovem.

Sonia disse...

Agradeço novamente à Lídia Soares e a José Carreira do blog "O Silêncio Culpado" a oportunidade de ter colaborado e participado deste debate com o meu artigo sobre as imagens da terceira-idade. Agradeço também a todos aqueles que expressaram suas idéias a respeito do tema e seus generosos comentários.

Eugênia Franco disse...

Sonia,
foi um prazer saber mais de você. Só conhecia as fotos bárbaras do "Leaves of Grass". Seu curriculum é rico, seu texto é rico e profundo.
O Silêncio culpado passa a ser uma referência para mim.
O tema Velhice me interessa pessoalmente. E você sabe de minhas agruras com minha mãe, no momento.
Creio que o lado psicológico da velhice necessita de mais atenção.
Mamãe está acamada há 2 anos pela perda do companheiro, seu marido por 63 anos. Nada físico foi detectado.Isso me impressina.
Beijos e obrigada!

heloise disse...

Parabéns ao blog "O Silêncio Culpado" pela iniciativa do tema.

Sonia, que beleza de texto!
Diferente dos países orientais, onde o idoso representa fonte de experiência e sabedoria, e é tratado com respeito e veneração, em nosso país vejo enorme discriminação contra os velhos.

Tenho pais idosos e felizes, mas ambos possuem atividades e boa qualidade de vida. Mas reconheço que eles fazem parte de uma minoria. É preciso que cada um faça a sua parte, tratando os velhos com dignidade e respeito.
Beijo grande e parabéns! Helô.

Laerte Pupo disse...

Sonia

Gostei bastante do seu artigo sobre nos, os velhos.

Sim sou velho e não vejo nenhuma conotação pejorativa neste vocabulo.

Muito bem escrito, e facil de se ler. Talves porque o asunto nos interessa diretamente.

Já, já vou acessar a Livraria Saraiva e encomendar um para mim.